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29. "Bem, o que você quer fazer...?"

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   Quando ele me pergunta o que eu quero fazer, penso em dar uma resposta atravessada e sair pelo mesmo lugar que entrei. Estar no mesmo ambiente com ele é sufocante porque não quero falar, não quero pensar e tampouco quero fazer algo com ele. O que eu quero fazer, pai? Eu quero que você não seja o traidor que foi e quero minha vida de volta; quero jantares juntos e um feriado normal.
   Eu quero gritar. Honestamente, só de pensar em como mamãe sofreu quando você juntou suas coisas, colocando-as em malas e indo embora sem nem nos deixar chegar em casa da escola... só de pensar em como eu corri porta afora quando notei sua ausência e em como chorei, na calçada mesmo, pela garagem vazia... você não merece sussurros, pai. Você merece gritaria, briga, tempestade. Você merece que o tom da minha voz se faça mais que presente em gritos, dizendo que você foi covarde e irresponsável ao ficar um ano sem dar notícias. Pouco me importa se sua amante estava grávida e seu filho tenha nascido; o que estava vivo não merecia mais amor?
   Eu quero ressarcimento. Quando você anunciou a separação ao postar fotos de sua nova família nas redes sociais, eu tive que trabalhar para pagar o psicólogo que mamãe precisou. Eu tive de conciliar meus estudos e horas em um mercado de esquina que pagava o equivalente a uma consulta por semana e remédios fortes. Quero ressarcimento para as noites em que chorei, para os problemas em confiar no amor novamente e um extra pelo sentimento de impotência que senti ao ver quem eu mais amava sofrer sem poder fazer nada. Eu sabia que vocês brigavam, mas uma secretária? Achei que você seria melhor que um pai que dormia com uma colega de trabalho e depois fugia.
   Eu quero poder confiar. Agora, vendo você sentado nesse banco de lanchonete, tirando uma fotografia de seu filho de dentro da carteira, eu vejo que ainda me ama. Talvez seja pela maneira que aperta minha mão preguiçosamente deixada sob a mesa ou o jeito com que me pede desculpa a cada cinco segundos, mas sei que ir embora havia sido mais por você do que por mim; você me ama mesmo me deixando para trás. E eu até pensaria que tudo isso é algo relevante, mas eu não confio mais. Não posso acreditar em alguém que dividiu meu lar em dois, em alguém que usa "algumas vezes pais e mães simplesmente deixam de se amar" como desculpa para me abandonar também. Não posso confiar em você, pai. Sinto muito.
    - Bem, o que você quer fazer? - Você pergunta, por amor.
   - Pague pela minha conta e deixe-me levar um pedaço de bolo extra. - Digo, me levantando e já indo para o caixa. Ter uma refeição com ele já havia sido prova suficiente. - Levarei algo para minha mãe comer. Porque é ela que eu amo. Você não merece esse posto simplesmente por uma questão de genes ou sangue.
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2 comentários:

  1. Nossa Bi, que texto maravilhoso! Quer dizer, doloroso. Não sei se foram fatos reais, mas a gente ouve histórias do tipo superficialmente (porque a maioria não quer falar sobre... e com razão), mas quando se lê/ouve um acontecimento desse com tantos detalhes, com o sentimento de alguém que realmente vivenciou, a gente consegue sentir um pouquinho do sentimento das pessoas prejudicadas.

    Conheço pessoas próximas que passaram por isso, e eu nunca cheguei a me aprofundar sobre o assunto pois acho que é algo que ninguém quer falar sobre, ninguém quer relembrar. Só quer seguir em frente, mesmo que mancando...

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  2. Ual que forte, em pensar que isso não é mais exceção, conheço pessoas que viveram relacionamentos assim, cada um sabe da sua dor né?
    Beijinhos ;*
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