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Imagine

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   Vocês já devem saber que eu publiquei meu primeiro livro em 2014, não é mesmo? Pois eu já tenho as primeiras vinte páginas do segundo faz uns séculos, mas estou com medo. Com medo, sem inspiração e entusiasmo, sem tempo para escrever, por isso eu adoraria, DE VERDADE, compartilhar e ouvir feedback sobre a história. Vocês poderiam fazer isso por mim?
   Não vou dar sinopse porque quero que você entre no escuro mesmo. Só saiba que aqui estão o prefácio e o primeiro capítulo e que se chama "Imagine". Então, por favor, leia e me dê uma luz.




Prefácio 


Como começar uma história que você não deseja acabar? Quer dizer, se estou começando isso seja com papel e caneta, com pensamentos, com sonhos ou com um bloco de notas no celular significa que em um ponto ou eu vou acabar, ou vou desistir. 
Não quero acabar e tampouco quero desistir.
De qualquer forma, existem histórias incríveis e histórias não tão extraordinárias assim; a que eu estou para contar agora é uma que poderia passar despercebida se não fosse pelos olhos atentos de um narrador que é apaixonado pelo comum, mas que ninguém fala. Quando digo “comum mas que ninguém fala” quero dizer sobre a quantidade de pessoas querendo dar o que comer para os pobres na África, mas que não pensam no mendigo que vive na rua ao lado com uma fome dilacerante; ou sobre quantos meninos são inseguros (porque insegurança não atinge só a ala feminina).
Quando falo sobre casos normais que ninguém comenta, falo sobre Anna. Ela era uma escritora boa, mas que não tinha uma vida especial, sabe? Rotinas, personalidades, pessoas, paixões. Mas ela escrevia e amava fazer aquilo. Era bonito o sorriso que ela dava, lendo o que havia criado. Ela lia uma primeira vez para ela mesma, depois lia de novo e então repetia em voz alta, recitando cada uma de suas palavras como se fosse uma peça teatral. Uma vez que outra ela trocava algo aqui e ali, mas geralmente estava satisfeita com sua escolha.
Eu gostava daquela parte de Anna. Ela podia ser uma tempestade sobre todo o resto; sempre reclamando do clima, sempre bebendo chá e usando um falso sotaque australiano que devia ser só brincadeira para os outros, mas que para ela era a felicidade eterna quando realmente soava como alguém da Austrália. Porém, quando se tratava de seus livros, ela sabia que dava seu melhor. Ela dizia que seu livro havia ficado em primeiro lugar do mês no jornal local com a boca cheia de orgulho e felicidade.
Anna morava em Blue Hill, Maine. Com bem menos de três mil habitantes, a cidade era daquela que todos diziam ter sido esquecida por Deus. Na verdade, Blue Hill era só esquecida por famosos e por revistas de fofoca mesmo, pois muitos turistas vinham de Nova York, Canadá e de New Hampshire para refugiar-se lá. Deus em si também não havia esquecido da cidade: parecia que todos compareciam na missa de domingo, doavam parte do seu pagamento para a igreja e eram extremamente polidos. 
Todos conheciam todos e isso era a maldição, assim como a solução. Você poderia deixar seu vizinho cuidando de seu cachorro caso quisesse fazer uma viagem rápida no final de semana, porém ele poderia contar para um dominó que seu cachorro havia comido uma de suas pantufas. O próximo dominó faria questão de aumentar a história, dizendo que o cachorro estava com o demônio no corpo e, em questão de horas, pessoas poderiam ir até sua casa com o telefone de um exorcista e de uma psicóloga. 
Efeito dominó.
Era assim que Blue Hill era.
Mas Anna amava aquele lugar. Ela havia vivido sua vida inteira lá com sua mãe, seu pai e seu irmão Ethan. Eles eram uma família feliz e uma das mais ricas da cidade. A casa na beira do oceano com paredes de vidro e  uma vista incrível pertencia a eles e momentos felizes foram compartilhados lá. Aos cinquenta e três anos, Zoe e David, pais de Anna, haviam transformado a casa fabulosa em uma pousada e a filha havia se mudado para uma residência menos extravagante na rua South. Ethan, por outro lado, estava fazendo faculdade em Nova York e queria ser modelo, para o desgosto do pai.
Anna estava escrevendo sobre como Jimin, o anjo da sua série “Penas”, estava se redimindo depois de ter assumido uma forma humana e entrado no corpo de seu receptor na Terra, Zane Williams. Jimin havia se envolvido emocionalmente com Daisy, namorada de Zane, para piorar sua sentença. No fim de “Penas Negras”, o primeiro livro, ele havia entrado em coma por ter usado tanto do corpo frágil do humano. 
Em “Penas Azuis”, o segundo livro, Jimin havia acordado no céu, podendo ver Daisy e seu real namorado juntos lá de cima. Como tarefa especial, o anjo teve de cuidar do casal, ignorando sua paixão.O livro acaba no momento em que Daisy está prestes a terminar com o namorado quando ele parece ter visões, vendo cenas de quando era o anjo no seu corpo. Jimin sentira que isso só traria mais confusão.
E então a última frase do livro fora uma fala de Zane, que trouxe discórdia e loucura para as fãs.
“Você amou outro homem nesses últimos meses, mas a verdade é que você nasceu para mim e ninguém vai tirar-te daqui. Nem alguém coberto de ouro.”
“Penas Douradas”, o livro em que Anna estava trabalhando, era seu terceiro. Ela estava planejando que Jimin retornasse no corpo de outro humano e que assim se redimisse, mantendo sua posição de anjo e ajudando Daisy.
Ela estava um pouco temerosa sobre o que suas fãs iriam pensar, porém ela (mais do que qualquer outra pessoa) sabia da torcida para que Daisy e o anjo ficassem juntos. E o que seria da vida dela se não dar o que o público queria, da forma que elas menos esperavam? Anna era admirável por isso também; por uma criatividade maior do que qualquer um esperaria. Ela sabia como envolver adolescentes em páginas, quando eles poderiam muito bem estar fazendo coisas mais “divertidas”.
Anna decidiu que estava na hora de parar de escrever e se levantou. Precisava de uma boa xícara de café, com dois cubos de açúcar e dois cookies de chocolate. Talvez três. Checou seu celular para ver se Ethan havia ligado alguma vez e ao constatar que não, o irmão mais novo não havia entrado em contato, ela suspirou e bufou em seguida. Sendo delicada como um trator, relinchou como os cavalos fazem e amarrou os cabelos. Anna não sabia mais o que fazer com o irmão inconsequente que estava em um relacionamento com a fotógrafa que tinha idade para ser mãe dele. Ela achava horrendo, nojento e antiético enquanto ele classificava como excitante.
“Excitante vai ser o marido dele pegar vocês dois juntos e acabar com você. Entretanto acho que ainda vão te contratar sem um órgão reprodutor, então fique tranquilo” Anna dizia. Ethan, que possuía os mesmo olhos castanhos e cabelos claros da irmã, só ria e comentava que claro, obviamente conseguiria trabalho mesmo sem um órgão reprodutor porque era muito lindo e talentoso. Anna limpava a garganta, murmurava um “humilde” e os dois saiam daquele assunto.
Anna sentou-se na escrivaninha branca e olhou todos os objetos nas estantes. Fotos, pequenos elefantes e alguns souvenires que o irmão havia trazido de todos os lados do mundo enfeitavam o ambiente. Ela era alguém muito fácil de agradar com presentes simples porque seu repertório era variado. Ela gostava de gospel e músicas mexicanas que tocavam na estação entre o canal de notícias sobre a rodovia que ligava Maine com os demais estados e a estação com música pop. Ela gostava de terror e de ficção. Gostava de verão e de primavera. Ela era fácil de agradar porque gostava de praticamente tudo.
Parte daquela decoração era composta por presente de fãs também. “Penas” haviam introduzido Anna á uma vida que parecia ser perfeita. Ela recebia elogios em todos os meios de comunicação; cartas, mensagens através de fã clubes em redes sociais e até em encontros com os leitores. Seus livros haviam romance escorrendo das páginas, porém, acima de tudo, haviam reflexões que eram dignas de serem emolduradas e colocadas nas paredes. 
Era isso que os pais dela faziam, aliás. Em cada quarto da pousada havia três citações do livro dela em quadros que ou estavam na parede, ou ficavam em porta-retratos bonitinhos no criado-mudo. E eles vendiam o kit com os dois livros da filha pelo ótimo preço de vinte e cinco dólares, sendo que ela havia colocado uma mensagem especial dentro de cada um.
Anna tinha defeitos também. Ela não sabia como se controlar e muitas vezes era rude sem nem notar. Ela não conseguia ver nada fora do lugar e chegava a ser irritante. Não gostava de chocolate porque a dava dor de cabeça e se criticava demais com a desculpa que beirar a perfeição não era algo ruim; era o que havia a levado ao sucesso.
No geral, porém, era uma boa pessoa.
Pagava impostos, ia na feira da rua principal aos sábados de manhã  e sempre parava para ouvir o que os fãs que a reconheciam na rua tinham para falar. Não era muito comum que aquilo ocorresse porque ninguém parava muito para olhar a orelha no fim do livro. As únicas que a faziam eram as que se envolviam tanto que acabavam necessitando de um contato que poderiam usar para fazerem pedidos desesperados para que Daisy e o anjo ficassem juntos. Ou para falarem que Zane merecia a felicidade com Maggie, amiga de Daisy.
Cada uma tinha uma opinião de como as coisas deveriam acabar.
Mas Anna não queria acabar, por isso nem imaginava um desfecho digno.
Ela voltou a escrever. Anna sorria como se estivesse no auge da vida; naquele topo de montanha que você consegue ver o vale todo abaixo de você. 
Ela sorria como se o mundo não tivesse imperfeições. 
Ou melhor, sorriu como se o mundo tivesse imperfeições, mas nada fosse atrapalhar seu estado de espírito.
Eu queria um amor bonito, daqueles que você suspira porque não cabe fôlego no peito. O ar precisa sair para que o resto do corpo funcione direito ou alguma besteira médica assim. Queria um amor que envolvesse cartas, beijos, abraços, palavras bonitas e respeito. Queria um amor que não via fazia um certo tempo, mas que ainda desejava com a intensidade de mil livros de romance.
Então comentei com Maggie sobre meus desejos. Falei sobre querer  ficar na ponta dos pés e envolver o pescoço dele com meus braços, enquanto me pergunto se ele está com os olhos fechados assim como eu. Queria calar suas piadas sem graça com minha mão em sua boca, só para senti-lo beijando minha palma segundos depois. Queria sorrir para seu desenhos magníficos e queria que ele dissesse para os outros que sou "sua garota". Queria ir em algum museu e ouvi-lo dizer que pareço com alguma escultura estranha, ao passo que queria ir no planetário e, depois de me olhar nos olhos em silêncio, ele confessaria que as estrelas parecem tão infinitas quanto o que sente por mim. Queria que ele não me julgasse por imaginar demais e que me amasse sabendo que eu espero muito sim. Queria que escutasse minhas músicas e mexesse no meu cabelo. Queria que dormisse enquanto eu acaricio seu cabelo macio e que seu braço descansasse no meu quadril.
Minha amiga riu.
- Não existe essa coisa. Você sofre, sabia? Quer dizer, existem boas partes no amor, mas na maior parte do tempo você só se pergunta em qual merda que você se enfiou dessa vez e qual vai ser a melhor forma de sair dela. O amor não é bonito; o amor é estragado. -  Ela respondeu. 
Murchei.
O amor não era estragado. Se era, então que fosse aquela maçã feia que ninguém queria, mas que na verdade só estava à espera de alguém corajoso para prová-la. Se era, então que fosse a rosa que morreu por falta de água, mas que antes havia feito uma moça feliz. Se era, então que fosse um casaco que não servia mais, mas que um dia aqueceu.
O amor não era estragado, mas se eu estivesse errada então que pelo menos continuasse errando. Porque, na verdade, eu continuava acreditando que existe amor bonito. 
E eu ainda desejava um.

A história que eu estou contando é dela, mas é também sobre como o amor foi subestimado nesse tempo todo. Amor é mágico e eu espero que concorde comigo no final dessa história.



Capítulo 1 

Eu havia escrito tanto que meus olhos estavam doendo. Nem piscava, o que me lembrava do mantra que meu pai me ensinara quando eu era uma adolescente rebelde que lia livros com a luz baixa do abajur.
"Se vai mesmo forçar sua visão desse jeito, então prometa-me que vai piscar pelo menos três vezes por minuto” ele falava. Meu pai possuía uma visão impecável, enquanto minha mãe não enxergaria nada sem a ajuda de seus óculos. Ele sempre conseguia me fazer rir com a piada do coelho, dizendo que eu devia comer mais cenoura para que minha visão ficasse melhor. Eu perguntava o motivo e, com os lábios apertados e mantendo seu ar sério, ele questionava se eu já havia encontrado um coelho usando óculos.
Eu não escutava aquilo fazia séculos, mas lembrava que ele já havia tirado sorrisos de minhas amigas com aquela conversa.
David era charmoso. Olhos azuis, cabelos negros. Eu esqueceria que ele não era meu pai de verdade se não fosse por nossa aparência tão oposta, uma vez que ele me tratava como filha de sangue.
Ser adotada não era um problema para mim, nem uma questão da qual eu precisava discutir com um psicólogo. Não haviam marcas escondidas em mim pelo fato de que meus pais verdadeiros fugiram. Também não haviam feridas em saber que eu havia sido deixada no hospital depois que a mulher que me carregou por nove meses saiu de lá, deixando sua filha para trás. Era um questão de ponto de vista, entende? 
Eu escolhia pensar que Zoe e David me escolheram; que eles precisavam de uma menina para, no futuro, colocar meu irmão nos trilhos e que eu precisava de um casal para me ensinar que escolhas feias não fazem 6vidas feias. A mulher que eu não sabia o nome podia até ter errado em me deixar, mas seu erro fez minha vida ser bonita. E feliz.
Era minha decisão ver minha vida como uma boa coincidência e não como um caos que me perseguiria para sempre. Pais são aqueles que criam você. Pais são os que te colocam de castigo para que você entenda sobre o certo e o errado; são os que te abraçam quando você fica com medo. Pais são os que não desistem de você, mesmo quando sua cabeça parece explodir e uma solução plausível parece não existir.
Levantei-me do sofá, sorrindo ao pensar em meus pais. Coloquei os braços para o alto e meus calcanhares pareceram tentar desafiar a gravidade e sair do chão. Espreguicei-me e bocejei. Era uma da manhã de um outono chato e chuvoso.
Daisy, a personagem principal de meus livros, estava começando a sentir falta do Zane com quem havia convivido por tempos antes do acidente. Ele havia desmaiado um pouco antes de contar o que tanto queria e, ao acordar, parecia um homem completamente diferente. Ela notava a diferença em seus atos, em seu jeito de beijá-la e em seus abraços.
E de supetão aparecera Aster, um homem contratado para passar o dia inteiro ao lado dela no balcão da floricultura em que ela trabalhava. Ele parecia saber de praticamente tudo sobre flores e naquele amor compartilhado por seres-vivos-não-pensantes eles se envolveram como galhos numa videira.
Só que eu havia travado. Não parecia sair mais nada daquele amor, daquela rotina. Eu estava estagnada a ponto de olhar o caderno com noivos em cima de um grande bolo branco na capa e pensar em abri-lo para ver minhas opções.
Casamentos eram um péssimo sinal, na verdade. Quando eu me sujeitava a participar da organização de matrimônios era porque 1. estava sem inspiração para continuar 2. precisava do dinheiro 3. queria uma desculpa para sair de Blue Hill ou 4. estava sem inspiração e queria sair de Blue Hill. Só que não parecia uma má ideia realmente porque, se eu bem me lembrava, o casamento em questão seria em Nova York, então eu poderia procurar meu irmão desnaturado que havia me deixado sem dar notícias por semanas e me assegurar de que ele não havia sido morto pelo marido descontroladamente forte da sua namorada.
Parei de pensar em Daisy e em como milhares de adolescentes espalhadas por meu país pensavam nela também. Eu não sabia o motivo, mas muitas meninas se identificavam com minha personagem, mesmo não sendo nenhuma heroína perfeita, cheia de segurança sobre si e amores para espalhar.
Daisy tinha dezessete anos e estava no último ano do colégio. Não sabia o que faria da vida, mas tinha a impressão que não descobriria nada na faculdade, mesmo quando todos pareciam estar baseando “qualidade” no nome da universidade em que conseguiam bolsa. Daisy namorava Zane porque se sentia bem com ele e trabalhava na floricultura na esquina de casa porque os donos eram seus vizinhos e precisavam de ajuda.
Ela não era bem a definição de rebelde, mas ainda sim sabia como brigar com os dois irmãos pelo melhor controle de videogame. Aquilo ocorria todas as noites de terças e quintas. Ela não gostava muito de sair com os amigos, mas ainda era uma boa amiga. 
Daisy era só uma garota. Mas muitas se identificavam, e eu não entendia.
Você foi o meu amor mais chato e clichê. Amor à primeira vista. Amor à primeira conversa. Não sei como aconteceu, mas em um dia de chuva, depois de tantos abraços, beijos e promessas, senti que você estava indo embora sem nem ao menos me deixar um recado. Não sei se era porquê você achava que eu não valia o desperdício de tinta da caneta, ou se não encontraria as palavras certas mesmo. 
Um dos problemas do amor é que não podemos escolher por quem nós iremos ter um ataque interno, onde todos os neurônios resolvem parar de funcionar, o que ocasiona uma gagueira e um belo discurso estúpido. Eu, em outros momentos, adoraria dizer que o bônus da surpresa é o que torna tudo melhor, porém não é este o caso. Não poder escolher qual será o endereço do motivo de seus sorrisos é horrível-porém-inevitável e quanto mais rápido aceitar isso, mais rápida será a queda e mais rápido você poderá se curar. 
Eu sinto que você está me esquecendo e não estou bem com isso. Não que eu esperasse que fosse eterno, mas tampouco esperava que fosse rápido assim. Eu estou esquecendo a cor de seus olhos e você vai abandonando o que sentia quando eu mexia em seu cabelo. Estamos seguindo caminhos diferentes e eu posso jurar, em diversas noites, que isso não é o certo, porque você é como um poema com pés. O meu poema com pés: você foi estranho, organizado demais e com rimas baratas. Foi quase um soneto. O problema é que as rimas me fizeram gravar você em minha mente como tatuagem na pele. 
Aconteceu. 
Você foi embora. 
E não avisou.

Decidi que daria uma chance para os casamentos e abri o livro. O casamento era da prima de uma amiga de minha tia Susan. Eu a ajudava eventualmente com seu negócio de “felizes para sempre", principalmente quando precisava de romance para meus livros e ela de um par de mãos extra para o dia especial de um casal.
Columbus Circle com 60th Street, número oitenta. Mandarin Oriental Hotel.
Aquele lugar seria maravilhoso para um casamento, especialmente com a equipe incrível que Susan trabalhava. Eles deixariam aquele salão perfeito. Obviamente que uma boa quantia seria desembolsada, mas eles não deveriam se importar com dinheiro, afinal haviam decidido pela cidade mais cara do país para se casar.
Mandei uma mensagem perguntando se Susan desejava ajuda e bloqueei o celular. Era incrível como aquela pequena máquina maldita me fazia perder a concentração em segundos e fazia com que eu escrevesse coisas erradas na vida real por estar tão acostumada com o auto-corretor. No entanto, o mesmo corretor que me deixava um pouco mais burra, era o que me fazia rir com suas correções. Uma risada composta por “h” e “a” se tornava “Havaianas” e “desculpa” digitada rápida e com alguma letra faltando se transformava em "Drácula”.  
Ethan não deu sinal de vida, assim como minha criatividade, então resolvi comer algo e assistir um pouco de televisão. Quanto menos eu pensasse na pressão para terminar o livro, melhor seria. Daisy estava bem divagando na chuva, perdida em amores e decepções; quem precisava de uma vida era eu. 
Uma vida e talvez um café.
Um filme acabou e começou outro, no qual não prestei atenção no nome. Arrependi-me na metade, uma vez que a trilha sonora era boa. Superei o fato e esperei que o filme terminasse para pegar o nome dos autores e tentar encontrar algo. Siri me disse que o filme era uma comédia italiana que tinha estreado três anos atrás e quando me perguntava mesmo se o filme se classificava como comédia, uma vez que o casal principal morreu drasticamente no final, notei que já passava das quatro da manhã.
Fui para minha cama usando uma camiseta gigante com manchas que eu sequer me lembrava e, sem escovar os dentes, peguei no sono mais rápido que nunca.

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Acordar não era o meu verbo favorito. 
A-cor-dar. 
A cor dar. Dar cor.
Não, acordar era sobre sair de um estágio de perfeição, onde seu corpo repousa e sua mente não associa nada. Nenhum problema, nenhuma dor, nenhum personagem fictício para matar ou fazer os leitores amar. Acordar implicava em um furo na perfeição de dormir. Acordar era ruim e conjugar aquele verbo era pior do que saber que ele existia. Pior ainda se estivesse na primeira pessoa do singular.
Eu acordei.
Naquela manhã, eu acordei.
E não estava sozinha na cama.
O corpo estranho ao meu lado estava ressonando enquanto eu surtava por dentro. Levantei da cama tentando não o acordar e dei uma rápida checada. Meu corpo estava com as mesmas roupas de quando eu havia ido dormir e nada doía. Nenhum arranhão, nem lembranças sobre aqueles lábios rosados, grandes e perfeitos.
Seu nariz era um triângulo um pouquinho grande demais nas laterais. Seus olhos eram um risco e eu conseguiria traçar uma linha imaginária com facilidade no maxilar dele, pois era bem marcado. Sexy.
Ele era muito bonito.
"Mas o diabo não consegue atrair se for feio, não é mesmo?"
Procurei alguma coisa para ameaçá-lo e quando vi que a melhor opção era uma luminária comprida que imitava lava, segui para a cozinha e peguei uma faca e uma vassoura.
Passou pela minha cabeça que lutar com um homem não era uma vitória garantida, então liguei para a polícia. O nervosismo era eminente e consumia minha personalidade tranquila e meu lema de não surtar cedo. Atenderam meu chamado em uns segundos e então eu falei que havia um desconhecido na minha casa e que eu não sabia se ele estava armado ou não.
- Você viu ele entrar? - Perguntou-me o atendente. Eu, tremendo como uma condenada, e o homem querendo saber se eu havia visto ou não o cara que podia estar perto de me matar? 
- Não. Por favor, mande alguém rápido! Eu estou sozinha.
Minhas veias pareciam latejar e eu não sabia se era melhor me esconder ou tentar descobrir o que ele queria na minha casa, dormindo na minha cama. Pior que tudo era estar sendo violada no meu esconderijo secreto. Minha casa era a minha concha e eu não sabia como alguém em Blue Hill faria algo como aquilo. Aliás, eu não lembrava daquelas sobrancelhas em Maine.
Ele não era dali, com toda certeza.
Em passos lentos e trêmulos, voltei para meu quarto. O homem continuava dormindo e eu continuava segurando a vassoura como se ela fosse uma bóia que me salvaria de morrer afogada.
Caminhei até o meu lado da cama e usei o longo cabo para cutucar o homem. Ele se mexeu e coçou os olhos.
“Certo, Deus, eu sei que não fechei os olhos naquela oração e meio que fiquei espiando os botões abertos da camiseta daquele fiel que fica na fileira do lado na igreja, mas não permita que ele me machuque.”
- Bom dia. - Ele disse. A maneira como sorriu, fazendo seus olhos já pequenos se fecharam por completo, me deixou ainda mais nervosa. Ele parecia um marido exemplar sendo acordado pela esposa. - Sei que isso parece estranho, - ele se levantou e eu dei um passo para trás. Por que eu não fui esperar a polícia do lado de fora de casa? - mas cheguei aqui no meio da noite e não quis acordar você. Então acabei adormecendo e… céus, isso soa muito estranho, não é mesmo?
Asiático.
Ele era asiático. Na minha cabeça, todos eram indiferentes e inteligentes, mas ele parecia cuidadoso e maluco. Talvez mais maluco que cuidadoso, mas aquilo não importava.
Qual era a porcentagem de serial killers asiáticos? Nos Estados Unidos, pelo menos. Porque, se estivesse contando essa porcentagem na Coreia esse número seria diferente. Certo?
Notei que me perdi em pensamentos e ele riu. Pensei em gritar um “dá pra não rir enquanto eu estou aqui, querendo ir no banheiro, mas não podendo porque você é fofo e maluco e estava dormindo na minha cama?” mas me limitei a perguntar o que ele queria.
Ele coçou a nuca, parecendo envergonhado e se sentou em minha cama. Fiquei me perguntando se eu teria que incinerar tudo quando aquele pesadelo acabasse ou se só jogar fora seria o suficiente. Acabei me perguntando também aonde estava a polícia, porque Blue Hill era Blue Hill e o xerife me conhecia, então eu meio que esperava estar no topo da lista de prioridades. Não que eles tivessem uma lista assim, mas, se tivesse, eu estaria nela. Lá em cima.
- Olha, eu preciso da sua ajuda e estou desesperado. Eu teria esperado na sala, mas precisei me assegurar que era você de verdade. 
- Prazer, eu sou eu. Agora você pode, sei lá, sair daqui? Mas, se não for pedir muito, pode me dizer o que queria. Se você for um assassino, essa enrolação me dará tempo de sobreviver. Caso seja só um maluco, pelo menos eu não vou ficar curiosa depois, entende?
O que eu estava fazendo?
A verdade era que eu nunca sabia como lidar com homens bonitos. Desde que me conheço por gente, atravesso a rua para não cruzar com um maxilar bonito e sobrancelhas grossas porque sinto vergonha e não sei como agir. Por essa razão, dois verões atrás, resolvi me inscrever em uma palestra para timidez. No folheto dizia que teria ênfase em relacionamentos amorosos e eu até fiquei animada com isso. Cheguei cedo no centro educacional e procurei sentar na frente, esperando pela doutora Alex Rodriguez. Quando a porta bateu com força, revelando um homem alto e loiro lindo, com uma etiqueta escrita “Alex Rodriguez” soube que havia um erro no folheto. Não existia aquele “a”. Era um doutor.
Era lindo.
Era o motivo para abandonar a palestra.
E então eu ainda não havia desvendado o mistério da beleza masculina. E então eu não sabia como lidar com aquele ser sentado na minha cama com uma camisa branca, cara amassada e jeans surrado. Suas meias eram listradas e eu teria amado aquilo se as circunstâncias fossem outras. Tipo, se ele fosse um personagem de um filme ou de um livro e não estivesse ali na minha casa.
- Eu não posso ir embora, Anna. Você precisa me ajudar a voltar. - Olhei para seus olhinhos apertados sem compreender o que ele pretendia. Ele entendeu minha confusão e continuou a falar. - Sou eu, o anjo. Do seu livro. Preciso da sua ajuda para ficar com Daisy.


E aí, o que achou? Espero comentários longos, críticos porém amigos. 
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4 comentários:

  1. Bi, você arrasa com as palavras. Não me canso nunca de dizer isso e você nunca me decepciona com seus textos. Já começo dizendo que você me deixou muito curiosa quando me avisou desse post pelo twitter. Eu, que estava assistindo, pela primeira vez, o filme 10 coisas que eu odeio em você, tive que pausar a netflix para ler seu texto e não me arrependi.
    Como já disse no twitter também, confesso que no começo eu fiquei meio confusa quando era você, a Anna, o livro da Anna, o irmão ou o anjo, mas conforme a leitura tudo se encaixou e eu fui gostando do jeito da personagem. Gosto da confusão na cabeça dela quando o vê na sua cama. E fiquei chocada quando chegou na última fala. De tudo que eu esperava, não era nada disso. E agora, é claro, estou eu morrendo de curiosidade para saber como ele parou ali.
    Aliás, você sempre provoca isso né? Essa curiosidade e gostinho de quero mais. Prova de que eu sempre fico assim é aquele outro texto, da noiva, que eu fiquei maluca por uma continuação (e ganhei uma a altura!). É isso que eu mais gosto em ler os seus textos. Eu sempre quero mais!
    Eu já sou sua fã e estou contando os dias pra ler a história completa.

    Beijos
    www.quaseprimavera.com

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  2. A sua escrita é maravilhosa e você sabe como intrigar quem está lendo e isso é tão: SUA FILHA DA MÃE CONTINUA LOGO!
    Adorei o fato de você estar escrevendo sobre uma menina que também escreve, porque você que também escreve, sabe exatamente como transmitir pro leitor o que acontece com quem escreve. Confuso? Talvez, mas o fato é que eu amei!
    A tua história me lembrou muito daquele filme "Ruby Sparks - A namorada perfeita. Mas, eu estou em dúvida se isso é um sonho da Anna ou se está acontecendo mesmo!
    Tô aqui muito ansiosa pra ler a continuação!

    Beijão, mariasabetudo

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  3. Não sabia que você tinha um livro publicado, já vou procurar! Você escreve tão bem, você tem um dom único! To muito ansiosa para ler a continuação.

    www.kailagarcia.com

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  4. Meu Deus, Bianca.
    Você precisa continuar, de verdade.
    Gostei bastante do prefácio, foi bom ler sobre uma personagem que seja escritora, já que nunca havia encontrado algo assim antes.
    A série "Penas" tem uma história legal, fiquei feliz por poder ler alguns trechos dela. Sim, quero que a Daisy fique com o anjo. E será que se Maggie ficar com Zane ela muda a opinião sobre o amor?
    Uau, um personagem adotado. Outro tema que nunca li sobre, mas que é bem interessante.
    A personalidade de Anna é incrível, identifiquei bastante, ainda mais com o lado escritor, porém acredita que vi várias características que pertencem a você nela?
    Você tem um jeito de fazer reviravoltas que me surpreende. Jamais imaginaria que seria o personagem do livro dela no final, apostei que seria um fã, acredita? Agora quero muito a continuação dessa história. Preciso descobrir como o anjo chegou ao nosso mundo e com quem Daisy ficará.
    Você tem meu total apoio, Bibs. Conte comigo sempre, viu?

    Com amor,
    Gabe.

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