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   Ouvi minha esposa dizer que o nosso amor está comprometido. Ela conversava com uma amiga e contou sobre como eu era incrível, continuava em forma e como as mulheres de meu escritório olhavam para mim "daquele" modo. Ela falou que me amava, mas que tinha medo de que, um dia, eu acordasse e notasse que perdi a vida com uma mulher que não era o suficiente para mim. Sua amiga ficou em silêncio e então ouvi o barulho de um tapa. "Nunca mais repita essas coisas, ok?". "Você machucou meu braço, biscate". E então elas riram baixinho e mudaram de assunto.
   Eu não questionei ou mencionei a conversa, mas minha esposa soube que algo estava diferente quando, naquela noite, entrei no banheiro quando ela estava saindo do banho e simplesmente fiquei na porta, encarando seu corpo exposto. Ela olhou para mim esperando que eu fosse fazer uma pergunta ou falar algo e, ao notar que eu não tinha um propósito definido para estar ali, voltou a se secar. A toalha secava o resto de água de sua pele e pude notar quando ela envolveu seu busto e me lançou aquele olhar.
   - Está tudo bem? - Ela perguntou.
   Minha mulher levantou os braços, enrolou os cabelos e os prendeu sem a ajuda de um elástico. Eu achava aquilo fantástico; como um truque de mágica. Ela logo abaixou os braços, com as bochechas já vermelhas. Suas axilas eram escuras. Nenhum tratamento ajudava e ela já havia tentado milhares de cremes. Já havia a pego se olhando no espelho, com aquele olhar de nojo e doeu-me saber que ela dedicava aquele desprezo para seu próprio corpo.
   - Sim. Só estava pensando no dia em que nos casamos. - Respondi.
   Ela piscou, sorriu e olhou para o chão. Mesmo depois de anos, ela ainda ficava surpresa com demonstrações de afeto e elogios. Eu gostava disso nela, porém, infelizmente, acontecia porque ela se contentava com pouco, porque acreditava que não merecia muito.
   - Arrependimento?
   - Certezas.
   Seus olhos castanhos me encararam e eu gostei da atenção que recebi. Eu amava aquilo que ela fazia com as sobrancelhas quando me achava bobo ou quando não compreendia algo. Mas então desistiu de mim e se voltou para a pia. Olhou-se no espelho e ajeitou o cabelo, cuidando para não me deixar ver seus braços. Depois, quando pensou ser suficiente, saiu do banheiro e foi para nossa cama. Sentou-se e pegou um creme corporal e tirou a toalha outra vez.
   - Você sabe que sempre fomos amigos, certo? - Ela perguntou. Pude ver sua tensão ao me deixar ver seu corpo. Depois de nossa filha, sua insegurança havia ficado ainda mais marcante. Acenei com a cabeça e esperei para saber onde ela queria chegar. - Porque eu queria te perguntar uma coisa.
   E aí estava por vir. Mais depredação, mais nojo.
   - Você nunca se arrependeu? Digo, de mim. De nós. Não?
   Suas coxas tinham estrias, assim como seus quadris. Seu corpo nunca fora magro e, por mais que ela muito desejasse, pernas finas não faziam parte de sua estrutura corporal. Ela não usava blusas que deixassem suas costas de fora por conta de problemas com acne na adolescência. Ela também não gostava de vestidos com alça fina porque exaltavam as dobras de seus braços. Lembro-me de quando ela chorou ao encontrar o vestido perfeito e não pôde usá-lo por causa daquele detalhe. Eu a beijei, beijei seus braços e falei que se aquilo a incomodava tanto talvez pudesse cobrir com seu cabelo ou com um xale. Ela sorriu em resposta, mas fiquei sabendo que tinha considerado aquilo uma confirmação de que eu concordava com suas imperfeições.
   Ela não se amava. Não gostava de sua aparência e não via nada do que eu enxergava. Não via seu sorriso bonito; só sabia que seus dentes da frente eram um pouco separados. Não via suas curvas, via falta de delicadeza. Não sabia que eu amava quando ela acenava em minha direção, só sabia acreditar que seus braços e axilas eram horrendos. Ela não se amava e eu não sabia bem o que fazer.
   Em um segundo, eu a olhei nos olhos. Em um segundo, eu a beijei. Em um segundo, eu a peguei no colo e disse que a amava. Em um segundo, a insegurança passou. Em um segundo, a insegurança voltou. Em um segundo, ela pediu que eu a largasse no chão porque "estava gorda demais". Em um segundo, eu a amei e quis amá-la para sempre.
   - Sabe que eu amo você? Sei de cada detalhe que você não gosta em si, mas eu simplesmente não entendo. Você é tão linda e talvez faça parte do seu charme não saber disso. Talvez eu precise te lembrar disso todo dia. De um jeito ou de outro, não me arrependo. Em um segundo você pode mudar completamente sua aparência, em um segundo você pode se sentir horrível, mas nem com todos os segundos do mundo eu poderia deixar de te amar e te achar linda.
   Em um segundo, soube que havia nascido para amá-la. Em um segundo, quis fazer aquilo para sempre.
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