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Esse texto é uma continuação. Leia a primeira parte da história aqui.

   Foi aí que ele deixou de acreditar. Quando viu que ela estava aliviada, dispensando os convidados e recebendo abraços reconfortantes de seus pais, ele deixou de acreditar que haveria alguma coisa que pudesse fazer para mudar a cabeça insana de sua noiva. 
   A mulher tirou seu véu, olhou-se no espelho com um certo orgulho e rumou seu apartamento. Os presentes no chão da sala deviam ser desembrulhados por mãos abençoadas com alianças que combinavam, mas aquilo já não era possível. Deu uma rápida olhada na possível louça nova que não teria, nas taças de cristal que não comportariam o líquido mágico que a faria brindar aquela nova fase de confiança e desinibição e sorriu. Foi então que uma sacola chamou sua atenção e a desinibição pareceu um pouco mais longe da realidade: era uma sacola da fatídica livraria. Talvez fosse presente dele. Ela nem pensou na sua presença na igreja quando se dispôs a receber olhares de angústia, confusão e raiva. Ela nem lembrou que seus olhos fariam parte da massa que a julgaria por desistir do futuro planejado. Ela não recordou que ele, o homem que tanto desejou conhecer, estaria lá, ouvindo-a pedir desculpas. Ela não pensou nele, mas agora que a neblina passara, ela pensou.
   No pacote estava o nome de sua amiga que falecera de um ataque de asma terrível. Aquele inverno havia sido excruciante e, por conta da neve, ela sequer pudera comparecer no seu funeral. Franziu o cenho, pensando em como havia recebido o presente e em quanta coincidência ter sido comprado na livraria que ela conhecera o não-tão-possível amor de sua vida. Abriu a sacola e viu que era um livro de receitas. A amiga sabia de seus problemas na cozinha. Após um sorriso triste, notou que sentia falta de moça. Notou também que havia outro livro na sacola. Quando pegou-o, uma nota caiu de dentro e então a confiança também abandonou o brinde. A letra era feia, assim como a ansiedade que deixava seus pelos arrepiados.
   "Olá. 
   Você não sabe meu nome e eu tampouco sabia o seu. Descobri ontem quando, colocando as coisas de Anna em caixas, encontrei o livro de receitas com seu endereço e o convite de seu casamento. Procurei por fotos e vi que você era você. Talvez não recorde de mim e isso tudo seja bem constrangedor, mas nos encontramos algumas vezes na livraria onde comprei esse livro. No primeiro dia em que vi você olhando para mim, havia brigado com Anna e fui até lá para espairecer. Fiquei na dúvida entre dois livros e acabei escolhendo esse que estou dando para você hoje."
   Sem terminar de ler a nota, ela pegou o exemplar e leu o nome. Admirável Mundo Novo. Ela nunca havia o lido, mas sabia que era uma literatura parecida com 1984, de George Orwell. Sociedades organizadas de formas diferentes da qual conhecermos hoje e críticas sutis relacionadas à hábitos e política. Nada muito romântico, para falar a verdade.
   "Escolhi esse também, cinco anos atrás. Foi uma boa escolha, se me perguntar. Era algo mais racional, mais verdadeiro e era isso que eu precisava.
    Acredito que é isso que você precisa também. Os livros que você escolhia eram sempre romances impossíveis e casamento não é só isso. Casamento é um ato racional que pode ter sido movido por emoção, mas que só será consolidado e longo se os dois pensarem racionalmente e escolherem respeitar-se, amar-se e cuidar um do outro. Acho que era isso que Anna desejava para vocês, então senti que deveria comparecer na cerimônia. Espero que não tenha se importado, caso tenha me visto. 
   Desejo-te toda felicidade do mundo. De verdade.
   E muita coragem."
   Ela suspirou, dobrou o bilhete ao meio e colocou dentro do livro. Ele prestara atenção nela quando ia na livraria? Anna era sua namorada e motivo pelo qual ele não pôde sequer sentar e conhecê-la melhor. Não arrependeu-se, nem questionou a vida; simplesmente desejou ter mais coragem.
   Semanas depois de devolver os presentes, esquivar-se de perguntas maldosas e seguir sua vida, ela foi até a livraria procurar um livro. Admirável Mundo Novo era bom, mas ela ainda preferia seus romances. E lá, entre apostas que abriam os olhos dos protagonistas e acidentes que criavam amnésias e dificuldades em casamentos, ela o viu. Encarando dois livros e com um sorriso bonito, ele ainda era o mesmo que ela se lembrava.
    - Desistiu de ser racional? - Ela perguntou.
   - Oi. - Ele respondeu, surpreso. Parecendo desconcertado, largou os livros de volta na prateleira e acenou com a mão. - Como você está?
    - Estou me sentindo corajosa, então quer sentar e discutir sobre Admirável Mundo Novo? Preciso de algumas respostas.
   Ele sorriu, ela sorriu. E eles conversaram até notarem que talvez amor não seja sobre racionalidade ou emoção; amor envolve coragem e um pouco de coincidência.
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