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642 coisas sobre as quais escrever: 255

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   Eu o vi.
   Parado em frente a prateleira de enlatados, ele procura atum. Ele não sabe, mas não há mais do seu favorito. Sei disso porque peguei a última peça, pensando que o cheiro daquele óleo e o gosto dos pedacinhos do peixe me fariam lembrar de quando ele ainda morava comigo e de quando ainda nos amávamos. Pensando no quão bobo aquilo soava, dei meia volta e fui devolver o enlatado. Mas aí ele estava lá, com a mão no bolso do casaco, segurando uma cestinha vazia e eu não consegui respirar. 
   Seu cabelo está diferente e os sapatos são novos, porém aquilo não muda minha visão das coisas. Dali, vendo seu perfil, analisando seu desapontamento pelo atum, tenho vontade de chorar de novo. Quando deixamos de amar alguém? Quero dizer que o sentimento nunca mudou para mim. Eu sempre o amei e ainda amo. Dali, vendo suas mãos pescarem outra marca para substituir seu favorito, me pergunto se ele ainda dorme com as pernas em cima de alguém. Será que ele ainda lava a escova, coloca pasta de dente e depois molha mais uma vez antes de começar sua higiene? Será que ainda odeia o cheiro de casa fechada? Será que ainda toma banho com a porta aberta e sai molhando o chão? Será que ainda gosta de tomar um copo de leite assim que acorda? Será que ele ainda é o mesmo que dividiu a cama comigo por anos? Não sei, mas ele ainda gosta do mesmo atum e talvez isso signifique algo.
   Eu não o odeio. Van Gogh ingeria tinta amarela alegando que a felicidade deveria vir de dentro para fora; será que amá-lo não era a mesma coisa? Van Gogh comia tinta. Algumas pessoas se drogam, outras ignoram seus sentimentos e eu só dedicava meus minutos para ele. Cada um com sua maneira de tentar viver, de tentar ser feliz. Por isso, eu não o odeio. Não odeio porque, se a tinta amarela tivesse vontade própria, talvez gritasse que seu lugar era nas paredes dos prédios e não nas paredes internas dos órgãos de um cara maluco. Não o odeio porque não poderia desejar controlar suas vontades. Não o odeio porque, mesmo o amando, algo mudou e ele não me quis mais. Não o odeio então. Mas isso não diminui a dor.
   Ele olha e procura por outros enlatados enquanto eu o encaro. Como pode anos e anos se passarem e, de repente, você não sabe mais nada sobre a pessoa com quem se casou? Como pode você gostar do mesmo atum, mas não da mesma mulher? Como pode?
   Ele vai embora e eu continuo ali, encarando o vazio. Ele está tão bonito. Será que usa o mesmo perfume? Acho que dedicar meus minutos para meu ex-marido não adianta mais. Quando a lágrima escorre, largo o atum onde ele pertence e saio dali. Preciso tentar algo novo, pois sentir pena de mim e amar quem não me ama não está funcionando mais.
   Onde fica o corredor de tintas?  
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10 comentários:

  1. Sem palavras! Incrível!

    Continua (muito), beijos, Menina Borboleta.

    http://meniborboleta.blogspot.com.br/

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  2. Você escreve muitoo bem!
    Super continua!!
    Amei

    Beijos
    http://www.maisdocequemell.com.br/

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  3. UAU BI! Texto incrível, como sempre. Você consegue fazer a gente sentir como a personagem. A dor. Tudo. Esse seu dom com as palavras sempre me surpreende.
    Beijos!

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  4. Muito obrigado, querida :D De facto, deu algum trabalho mas tudo se consegue. O importante é que nunca se baixem os braços :D

    Adorei o texto!!! Consegues transmitir uma série de sentimentos de uma forma tão simples!

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    InstagramFacebook Oficial PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  5. Ai, achei tão triste. É tão louco imaginar que de repente as coisas podem mudar completamente e alguns vazios podem ser criados rapidamente. O texto ficou muito bom, parabéns *-*


    Beijos
    Brilho de Aluguel

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  6. Sabe quando um texto te dá um soco no estômago? Pois é. Seu texto fez isso comigo. Talvez, porque eu me veja como esta pobre moça, com a lata de atum (ou seria um livro do Neil Gaiman) nas mãos, esperando ele ir embora.
    Isso realmente dói. O que me consola é que um dia passa. Espero só que este dia não demore a chegar.

    Beijos,

    Algumas Observações

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  7. Oi, Bianca! Tudo bem? Sem palavras para o seu texto! É impressionante como você consegue escrever coisas que conseguem nos tocar de uma forma única com tão poucas linhas... E os personagens então? Extremamente bem construídos! Amei, amei e amei! Simples assim.

    Abraço

    http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

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  8. Ai que tristeeeeeeeeee :(
    Fiquei com vontade de dar um murro na cara desse cara imaginário e falar "volta pra ela, ela ainda gosta de você!" HAHAHHAHAHA

    http://heyimwiththeband.blogspot.com.br/

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  9. VOCE É DEMAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIS! SÉRIO BI :( eu consigo comentar em TODOS os seus posts, menos nesses: PORQUE FICO SEM PALAVRAS! Te juro! Só fico desejando um livro cheio dos seus textos pra ler antes de dormir!

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  10. Jesus, que texto incrível!
    O sentimento é tão palpável. Eu sei como é morar com alguém e ver o sentimento ir se modificando com o passar do tempo :/ e se eu tivesse que resumir em uma só palavra, seria "devastador".
    De verdade, você escreve incrivelmente bem. Se tornou um dos meus textos favoritos <3

    Beijos,
    Kemmy - Duas Leitoras|Tem resenha premiada e concurso cultural valendo livros no blog!

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