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   Ninguém nunca se importou com músicos. Estamos espalhados por todos os cantos, mas somos como bilhetes de loteria: milhares são considerados nada, enquanto alguns são os premiados. Não foi diferente naquela noite de 14 de abril. Não foi diferente porque, enquanto as mulheres e crianças ricas corriam para os botes, eu e meus companheiros de profissão ficávamos para trás.
   "Não estavam esperando o pior... não podemos salvar todo mundo".
   Alguns choravam, outros olhavam para as mesas e cadeiras reviradas e eu só me focava na sinfonia do terror que era causada pelos gritos, pelas explosões e pelos estalos. Pensei em me perguntar como o caos começou de fato, mas desisti. Quando a resposta não muda nada, você nem deve perder tempo fazendo perguntas. Tudo que eu sabia era que haviam trancado-nos dentro do salão principal, encarando o vidro que nos separava de uma multidão correndo, se jogando no mar, clamando por socorro, querendo viver. Meus parceiros haviam desistido de socar o vidro depois de uns minutos. Iríamos morrer de qualquer forma; ali dentro, lá fora, não importava. A morte era certa. Então, depois de nada dizer, peguei meu violino e suspirei. Era hora de começar meu fim.
   Acho que você nunca está preparado para coisas ruins. Aquele fechar de olhos antes da enfermeira enfiar a agulha, o cerrar de punhos premeditando um soco; sinais de que não estamos prontos. Eu não estava pronto para uma despedida, então não sabia qual música tocar. Apoiei o violino ombro antes de ajeitá-lo da maneira certa, mas meu corpo tremia de frio, de medo, de ansiedade, então achei que não fosse conseguir. No entanto, toquei qualquer coisa. Ninguém julgaria minha escolha. Todos morreríamos.
   Ninguém associou muito bem o que eu estava fazendo. Os que ainda raciocinavam, olharam-me assustados, porém logo acompanharam. Não havia volta. Um barulho extremamente alto acordou os mais inconformados e eles logo se juntaram. Devia ser uma explosão na cozinha ou em algum local com conteúdo inflamável. Não importava, então não me perguntei muito sobre o assunto outra vez. 
   Continuei tocando. 
   Toquei.
   Tocamos. 
  Tocamos porque não haveria um amanhã e porque era melhor do que ouvir os gritos. Tocamos porque assim não pensaríamos sobre a morte; porque tocar era mais fácil que questionar Deus. Tocamos porque era tudo que sabíamos.
   Eu não conseguia ver, mas os que se jogaram no mar já deviam ter morrido de hipotermia. Um casal apaixonado parou na frente do vidro com aquele olhar de quem sabia o que estava por vir e nos encararam. Foi como se dissessem "lembraremos de vocês". Eles se beijaram e eu fechei meus olhos. Não era fácil ter respostas erradas. Quando os abri, eles não estavam mais ali. 
   As cadeiras e mesas estavam escoradas na superfície vertical, forçando o vidro, enquanto nos escorregávamos vagarosamente na mesma direção. O navio estava virando. A moça havia caído no mar e seu amado se decidia entre chorar ou pular. Ele pulou.
   Paramos de tocar por causa das leis da gravidade. Nem elas abriram exceções para músicos azarados. Em questão de segundos, morremos.
   Morremos porque ninguém nunca se importou com músicos. 
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6 comentários:

  1. Confesso que eu nunca havia observado a história por essa perspectiva. Foi um desastre para todos, foi triste para todos. Mas deve ter sido pior ainda para aqueles que eram meio deixados de lado.
    Gostei muito do texto, da forma como você narrou!
    bjs

    blogtrashrock.blogspot.com

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  2. Olá,
    Nunca tinha pensado nas coisas por essa perspectiva, eu sempre me importei com os músicos, mas não tinha levado as coisas que você disse em perspectiva ainda.
    Beijos.
    Nasci Gabriela - www.nascigabriela.com.br

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  3. Muito feliz que você voltou com o blog e com tudo novo, tá lindo ♥
    Amei ameeeeei!!! Sucesso :)
    Você e seus ótimos textos hehe!

    http://heyimwiththeband.blogspot.com.br/

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  4. eu amo esse filme mas nunca havia parado para pensar dessa forma apesar de tudo que aconteceu eles não pararão de tocar de certa forma já sabiam qual seria o final então aconteceu .
    amei se escreve muitoo bem !!!

    beijos
    http://www.loucaapaixonada.com/

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  5. Super interessante esse momento nunca parei para pensar sobre
    por que eles tocaram ate o fim. Que bom que voltou 2016 seja de
    realização na sua vida e muitas alegria, sucesso saúde.
    Meu canal: https://www.youtube.com/watch?v=apP6eHn5PlI
    Blog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br/

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  6. Seus textos, Bianca. Seus textos <3. Adorei imaginar toda a cena pela perspectiva dos músicos. Bem diferente da imagem do filme que tinha. Ah, que bom ter seu blog de volta!

    beijo
    www.blogbelatriz.com
    YouTube Belatriz
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