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  Minha professora disse que amor não existe. Pensei que ela só queria assustar alunos inocentes ou que nunca havia ganho um sorriso de um moço charmoso que, sem querer, acabaria se tornando boa parte de sua felicidade. Talvez ele até roubasse algumas lágrimas, mas ela acabaria tão apaixonada que aquilo daria suporte para os dias ruins. A verdade, porém, é que ela dizia aquilo porque o moço já havia aparecido e, tão rápido quanto chegou, foi embora.
   Minha professora falou, mês passado, que estava bem. Ler todos aqueles poemas já não era tão dolorido e ela até compreendia que se ele havia partido era porque não tinha bagagem suficiente para ficar. Eu não acreditei muito na sua teoria, mas mantive-me no anonimato e balancei a cabeça, confirmando. Ela, com seus óculos diferenciados e o cabelo preso, sorriu fraco e pude ver que o ato não fez com que felicidade chegasse aos olhos castanhos dela. Ela não estava bem; sabia que não era amada, por mais que desejasse muito o amor. 
   Minha professora comentou, semanas atrás, que ele reapareceu. Foi por acaso que ela o viu na floricultura. Havia passado lá para comprar sementes de girassóis, afinal seu novo passatempo favorito eram as flores, que, segundo ela, eram ótimas confidentes. Ele, em contrapartida, comprou rosas. Rosas para uma nova paixão; paixão essa que ela nem sabia o nome ou a cor dos cabelos, mas que tampouco importava. Minha professora disse que doeu o corpo inteiro, como se estivesse queimando um fogo invisível. Ela ainda tinha de sorrir, mantendo as maças do rosto para cima e fazendo com que seus olhos se comprimissem e não deixassem que as lágrimas caíssem.
   Minha professora narrou, ontem, como foi sua noite. Ela disse que chorou por minutos seguidos e que tampava a boca algumas vezes, temendo que os vizinhos escutassem e batessem na porta, perguntando quem havia morrido. "Morreu uma parte de mim" ela disse que responderia, caso isso ocorresse. Seus olhos ainda estavam vermelhos, mas não toquei no assunto. A mulher contou que ele estava sorrindo tanto que ela sofreu em saber que ela nunca havia sido o motivo de tamanha felicidade. Senti pena dela, porém me mantive em silêncio. Palavras não pareciam o suficiente, então preferi não as proferir. 
   Com ela, uma professora comum, aprendi uma coisa. O amor não é simples, porque muda constantemente. Ele é como tudo na natureza, onde nada se perde, nada se cria; tudo se transforma. O amor é difícil, é doloroso e muitas vezes não faz sentido, mas, ainda sim, vale a pena ser sentido. É como uma fruta que, por fora, parece a mais apetitosa de todas, mas é só dando a primeira mordida para descobrir se por dentro está fresca ou estragada.
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14 comentários:

  1. Adorei! É exatamente isso. Não sentir esse tipo de amor é um problema. Essa sou eu no momento, não amo ninguém e ninguém me ama. Depois de tanto bater a cara na parede, meio que "me cansei" de procurar alguém para amar. É raro eu me sentir amada também e acho que isso complica um pouco nessa situação. Enfim, é assim mesmo, o amor é como uma fruta, a gente só vai saber se é bom ou ruim, quando se arrisca a provar.

    Beijos!
    www.likeparadise.com.br

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    1. Só eu que pensa que é muito triste quando alguém desiste do amor? Ler seu comentário me deixou triste, tanto quando escrevi esse texto, na verdade.

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  2. Adorei o texto, Bianca! E é bem assim mesmo, não dá pra definir ao certo o que é o amor porque ele nunca é a mesma coisa. Uma hora o amor te faz bem, outra te faz mal, e mesmo sendo essa montanha russa de emoções, ainda vale a pena ser sentido...
    Um beijão,
    Gabi do likegabs.blogspot.com ♡

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    1. Vale sim! Pode ser o que for, mas é inevitável amar.

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  3. Li como se estivesse vendo a cena do ocorrido passando na minha cabeça ao ler. Gostei muito! Adoro os seus textos.

    O amor é como citado no texto, não tem sentido, mas vale a pena ser sentido.

    Beijos! :*

    meianoite-br.blogspot.com.br

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    1. Que legal que eu consegui te fazer imaginar assim, Fabi. Fico feliz que tenha gostado.

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  4. amei o texto. se passou como um filminho nos meus olhos. o amor é tão simples, mas ao mesmo tempo tão complicado. pode-se encontrar alguém que não a pessoa certa, mas que parece fazer tudo para a satisfação do parceiro. pode-se, também encontrar alguém que, embora cometa tantos erros e pareça fazer tudo errado, é a pessoa certa para a vida do parceiro.
    muito obrigado por me dar o prazer de ler esse texto. :)

    mo-v-i-e.blogspot.com.br

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  5. Gostaria de saber o porquê de amar alguém e não ser correspondido dói tanto. Ou o porquê do amor ser algo tão complicado. É como se te esmagasse, te deixasse sem ar, como se não houvesse mais o resto da vida. É um baque, não sei.
    Gosto muito dos seus textos e parece que sua escrita transparece o que eu sinto, o que é bem estranho, mas muito legal haha
    Espero que você tenha todo o amor do mundo. E de verdade, obrigada por escrever.

    http://historiandoporai.wordpress.com/

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    1. Dói porque gostamos de ser gostados. É complicado porque somos diferentes e amar precisa de harmonia, equilíbrio. Não sei direito...
      Muito obrigada, Rafa! Fico feliz DEMAIS em saber que você gosta do que eu escrevo.

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  6. Que texto lindo!
    Pior que o amor é assim mesmo, às vezes dói, às vezes é maravilhoso...
    Quando não correspondido quem ama sofre, mas tem de passar por essa fase de sofrimento e se abrir para um novo amor.

    Beijos,
    Rabisquei meu Horizonte

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    1. Isso mesmo, Fernanda; não dá pra desistir.
      Obrigada por ler e gostar <3

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