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   Dizem que as crianças não sabem da verdade. Dizem que vivemos presos em filmes infantis e que por isso não compreendemos a seriedade das coisas. Dizem que nós não enxergamos que a luz no fim do túnel é só um aumento no salário ou uma melhora na economia. Dizem que nós somos iludidos e que não entendemos. Mas eu entendo, acredite, eu entendo. E eu só tenho doze anos.    Minha mãe chegou do trabalho hoje, com aquele sorriso usual nos lábios. Ela possui olheiras e suas raízes precisam ser retocadas com aquela tinta preta barata, porém ela sorri como se não tivesse problemas. Ela diz que é por minha causa. Acredito naquilo porque mães não mentem e muito menos o sorriso delas. Ela senta-se no sofá, desvia do rasgo que permite que a espuma saia do estofado e me puxa para seu colo. Minha mãe me beija na testa, pergunta do meu dia e, depois de uma breve conversa, comenta que precisa de um banho.    Eu a amo. Amo por tantas razões que nem lembro quando tudo começou. Amo porque eu vejo as contas se acumulando na bancada, mas nunca a ouvi reclamar. Amo porque ela ficou sem bolo de aniversário porque teve que comprar um uniforme novo para mim. Amo porque mesmo sem uma cama grande, ela me deixa dormir na dela quando tenho pesadelos. E mesmo quando não tenho, ela me deixa ficar em seu quarto e afaga meus cabelos sem perguntar. Acho que ela sente falta do papai, mas a verdade é que eu a amo por aquela razão também: porque ele a deixou, mas nem por isso ela fez a recíproca ser verdadeira. Ela ficou lá e cuidou de mim como ninguém mais cuidaria. Eu lamento por tudo isso também.    Eu fui para o nosso pequeno banheiro para perguntar se ela havia conseguido o emprego que ela desejava. A entrevista com os engravatados era hoje. Mamãe estava lavando o rosto. Seus cabelos estavam presos e suas roupas estavam no chão. Ela não exalava luxúria. Ela era real.      Vi seu corpo e soube que ela me amava também.     Mamãe disse que queria aquele emprego porque eu merecia um futuro melhor. Mamãe não disse, mas seu corpo, naquela noite, estampava seu amor por mim, porque ao lado dos quadris dela estavam marcas da costura de sua roupa de baixo. Nas suas costas, o fecho do sutiã apertado ainda marcava sua pele, assim como nos ombros, pela alça fina. As pernas, marcadas pela calça social justa que ela havia vestido, estavam mais finas. Ela havia colocado aquela roupa para ficar aceitável e conseguir o trabalho.     Ela havia feito aquilo por mim.    Então, notando seu cansaço e a aparente falta de felicidade, eu sorri para ela. Não perguntei sobre o trabalho. Disse que a amava. Ela sorriu, então a deixei tomar seu banho. Deixei o som ligado na sua música favorita naquela noite.    Eu entendo. Minha mãe trabalha demais e a culpa é minha, porém, mesmo que eu compreenda, não posso mudar isso. A vergonha é que os adultos dizem que nós não entendemos de nada e é justo a criança que procura uma maneira de melhorar as coisas enquanto eles estão ocupados em julgar minha mãe e eu.     A vergonha é que eles podem fazer algo para ajudar e eu não.
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14 comentários:

  1. Olá,
    Gostei do texto, trata de um assunto pouco abordado e gostei da sinceridade de suas palavras.
    Beijos.
    Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

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  2. Belo texto! Legal você escrever sobre a relação de mãe e filha. Confesso que ao as palavras que seriam usadas no texto já imaginei que seria história de um casal e essas coisas, mas me surpreendi lendo. Amei, parabéns :)
    "Acredito naquilo porque mães não mentem e muito menos o sorriso delas."

    http://heyimwiththeband.blogspot.com/

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    1. Pois bem que eu achei que as pessoas fossem esperar algo romântico, então eu tive que fazer o inesperado, né?
      Fico muito feliz que tenha gostado, moça.

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  3. Arrasou no texto Bianca, parabéns!
    Muito bela a história e muito diferente do que eu imaginei ler quando vi as palavras chaves. O tema é forte e também relata a realidade de muitas famílias, parabéns linda!
    Bjs, até mais!

    www.coletivodenos.com.br

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  4. Gosto de textos sinceros e achei bem legal o desafio das palavras.
    Tenha uma linda semana
    Kisses

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  5. Que texto lindo, nunca tinha lido algo parecido sobre relação materna, achei tão bonito e verdadeiro, mães são tão maravilhosas. :)
    http://corujasemasas.blogspot.com.br/
    Beijos! <3

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    1. Fico feliz que pense assim, Cris. Obrigada pelo carinho!

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  6. gostei bastante do assunto abordado! O texto ficou lindo!
    parabéns :)

    www.blogamorarosa.com

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  7. Gostei muito do texto, foi um tema inusitado :D
    https://kamilacavalcante.wordpress.com/

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