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   Eu gosto de garotos. Desde pequena, sempre que era convidada para os eventos da empresa de meu pai, perguntava-me se haveria algum menino bonito do qual eu pudesse admirar. Nunca havia alguém. 
   Com o passar dos anos, acabei sendo enviada para uma cidade da qual garota alguma quer entrar: timidez. Sem uma alma masculina e forte por perto, entregava-me sem demora às sensibilidades da vida. Chorava facilmente, ficava agoniada rapidamente. Claro, meu pai estava lá, mas ele não era exatamente um exemplo de garoto pelo qual eu devesse esperar. Ele era o legítimo príncipe encantado nesse mundo de sapos. 
   Em um dia comum, o peso da timidez me atingiu num passe de mágica e de maneira contrária à revigorante. Foi suplicante; aterrorizante. Eu vi o outro príncipe encantado nesse mundo de sapos. Não sei como, mas sabia que era ele. Era ELE. A pessoa; O cara. Letra maiúscula quase como nome próprio; letra maiúscula para dar ênfase.
   Letra maiúscula. Ele.
   Letra minúscula: eu.
   Ele era O cara, mas eu era só eu. Cabelo mais ou menos, pele ruim, roupas que não tinham o mesmo caimento que as de modelo. Olhos comuns, vida comum. Como competir com as outras por aí? Esse era o justo ponto: eu não competia. Simplesmente saía do caminho e deixava elas vencerem, pois estar na cidade da timidez faz com que você pense que vencer não é uma opção. Você puxa a manga das roupas para cobrir as mãos porque não sabe o que fazer com elas. Você não fala com pessoas ao telefone porque tem medo que elas falem algo zombeteiro sobre sua voz. Você desiste de sair porque sua aparência não é apresentável o suficiente. Você olha o príncipe encantado, fica feliz por cinco segundos e então desvia porque a princesa dele está lá fora, não dentro de você.
    Eu vi o príncipe. Fiquei feliz por cinco segundos. Desviei.
   Com os olhos azuis e cabelo loiro, o menino era estonteante. Ele usava um terno preto e gravata azul, mas eu podia imaginá-lo de uma forma bem menos formal, talvez cozinhando algo para nós dois ou sentado ao meu lado, em alguma festa infantil que demandasse muita animação e comida boa. Ele era bonito, mas o que chamou minha atenção foi que, mesmo com pressa, ele sorria para as pessoas. Foi delicado, observador. Ele sabia que, naquela hora do dia, todos estavam irritados e doidos para chegar em casa. Trombar em alguém seria pedir para morrer naquela cidade. Ele sabia disso e foi gentil. Sabia disso e, mesmo possivelmente atrasado, deixou o dia de outras pessoas melhor.
   O príncipe passou por mim, pareceu olhar-me nos olhos por dois segundos e partiu. Não sei onde ia com tanta pressa, mas me convenci de que não era saudável saber. Ele já era de outra e, se ainda não era oficial, logo acharia A mulher.
    Ele partiu e eu não olhei para trás.
   Na terra da timidez, você sabe que as coisas nunca são com você, porque nada se desenvolve lá. A terra é contaminada. Na cidade da timidez, usamos mangas compridas, não falamos ao telefone com estranhos nem saímos enquanto o cabelo está molhado porque o vento deixa os fios sem ordem. Na cidade da timidez, vou até em casa e penso no menino. Imagino onde está e porquê corria. Na cidade onde eu vivo, ele não me quer, nem sequer vai lembrar da garota estranha que viu saindo da estação de trem. Na cidade onde vivo, fico brava comigo mesma por não ser magnífica. Na cidade onde quero viver, gosto de garotos e eles gostam de mim. Na cidade onde eu vivo, a timidez transformou minha segurança em destruição e não consigo viver confiante.
   Na cidade onde eu quero viver, o príncipe parou, voltou e perguntou meu nome. Na cidade onde vivo, ele foi embora.
   Assim como minha esperança.
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18 comentários:

  1. Que texto bonitoo! Ameeei! É verdade eu também sou suuuper tímida, já deixei várias oportunidades passarem! Mas a gente vai aprendendo com o tempo e vai ficando menos tímida!

    Ameei o post!

    um beeijo bonitaa ♥

    E aí, Bonita!

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  2. lindo texto, eu sou timida quando estou em um local que não conheço ninguem, d+
    Sou bem solta kkk

    Bjuuuuu
    http://www.blogjumedeiros.com/

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  3. Posso dizer uma coisa? Estou quase chorando lendo esse texto, isso é tããão eu (e com letra minúscula). Me identifiquei muito com o texto... É foda morar nessa cidade chamada timidez/ilusão/decepção :(

    http://heyimwiththeband.blogspot.com/

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    1. Eu fico feliz que tenha gostado, mas triste que tenha se identificado, porque não é uma coisa legal :(

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  4. Oii :)
    Adorei o texto , adorei o quanto ele fez algo dentro de mim se identificar com cada uma de suas palavras. Timidez é uma droga , e eu odeio ser perseguida por ela.
    Beijos
    Eufemismoparamim.blogspot.com

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  5. Gostei do texto, me identifiquei com algumas coisas também.

    Beijos,
    BLOG JÉSSICA ALVES

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  6. Meu Deus do céu, eu me identifiquei DEMAIS com esse texto, sério mesmo, enquanto eu lia, conseguia me ver em cada uma das suas palavras... Viver na cidade da timidez é uma droga :(
    Um beijão,
    Gabi do likegabs.blogspot.com ♡

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    1. Que legal que gostou, mas sinto muito que também se sinta assim. Não é legal viver nessa cidade mesmo.

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  7. Oi Bianca!
    Nossa! Que texto lindo! Super me identifiquei com esse texto porque até hoje eu sou muito tímida
    Beijos
    Balaio de Babados

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  8. Ai, que fofo, que lindo. Eu sei, eles não ficaram juntos, mas foi uma cena tão sincera. Parabéns, bi, arrasou de novo.

    Beijos,

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    1. Muito obrigada!! Normalmente eles não ficam juntos nos meus textos, né? Que triste isso.

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  9. Comecei a participar desse projeto e escrevi provavelmente duas coisas. :'/ Amei sua desenvoltura com as palavras! Parabéns!
    A Bela, não a Fera está passando por reforma, enquanto isso acesse
    | YOUTUBE |
    | FB Page A Bela, não a Fera|

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    1. O projeto é demais! Quero ver você participando mais então, moça.

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