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   Estou atrasado. Coisas assim acontecem comigo todos os dias, mas ninguém nunca se importa. Sinto que meu sorriso brincalhão é meu passaporte para ser sempre desculpado. Ninguém se importa com a pequena fenda que existe nos dentes da frente; todos só querem ser apreciados, e um sorriso possui essa capacidade. As pessoas se sentem apreciadas quando alguém sorri para elas e isso é um fato.
   Sorrio para o porteiro. Pergunto como está seu cachorro. Segundo ele, Gilbert está bem e sua pata está até melhor. Sorrio para a senhora do quinto andar que está chegando. Não sei seu nome, mas ela sorri de volta. Sorrio para mais umas três pessoas no caminho até a estação. Sorrio para uma porque gosto de seus sapatos e para as outras duas porque são o casal mais lindo que já vi. Sorrio também porque quero algo assim para mim.
   Na escada rolante, cada minuto passa rápido, gritando "você está atrasado!", mas eu suspiro e sorrio para uma menina que parece com uma colega de faculdade. Talvez seja ela. Ou não. Ela sorri de volta. Legal. Ela é bonita.
   Entre sorrisos e tic-tacs do relógio, eu enxergo uma menina. A menina. Não é simplesmente legal; é ela. Mangas compridas, sorria como se tivesse vergonha da própria existência e mexia no cabelo constantemente. Ela era o oposto de mim. Alguém como ela me faria ser pontual, me ensinaria como equilibrar as situações. Eu a vejo, ela me vê. Mas talvez seja só eu, talvez seja só a euforia daquela entrevista de trabalho. Talvez.
   Quando passo por ela, ela não olha para trás. Se olhasse, jurei que desistiria da entrevista. Eu já estava atrasado de qualquer forma. Seria bom parar e, quem sabe, tomar um chá com ela. Perguntaria sobre seu cabelo bonito e pelo motivo de ser tão envergonhada. Perguntaria sobre muitas coisas. 
    Mas ela não olhou.
    Então foi só eu. 
   Não sorrio para ninguém no resto do caminho. Ninguém parece decepcionado, mas eu estou. Estou decepcionado porque, sendo uma pessoa extrovertida, esperava ser amado por todos, assim como esperava ter minha dedicação retribuída. Estou decepcionado porque ela pode ter visto minha imperfeição dentária e ignorado a vontade de ser apreciada. Estou decepcionado por não saber seu nome. Por ter pensado que ninguém seria a exceção para mim. Não estou decepcionado, estou triste.
   O que será que ela faz no cabelo para deixá-lo tão lindo?
   Cheguei na entrevista em cima da hora, mas consegui. Eles queriam alguém que "soubesse conversar com todo mundo". Sou bom com isso e não negaria mesmo. Talvez se negasse, ela iria se sentir confortável comigo e até olharia para trás.
   No caminho para casa, notei que o mundo não é sobre sorrisos. Mesmo arqueando a ponta dos lábios, as coisas podem estar desabando. Mesmo evitando contato visual, a vida pode estar feliz e nos conformes. O mundo também não é sobre isso. O mundo é sobre padrões e sua capacidade de interpretá-los e ignorá-los quando necessário. Posso ser extrovertido, mas também posso ter dias ruins. Aquela menina pode ser introvertida, mas alguém vai gostar dela pelo jeito que é.
   Gostaria de ser esse alguém.
   Mas não sou.
   Continuo sorrindo. É só o que sei fazer de bom.
   Espero vê-la de novo. 
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