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642 coisas sobre as quais escrever: 29

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   Minha avó me deu um livro e eu me recuso a ler. Não é pela história, pela capa, nem por ser pequeno ou grande demais. É pelo autor. Autora, na verdade. Minha mãe; a mãe que me abandonou anos e anos atrás.
   Nas histórias tradicionais, é o homem quem abandona. Parece ser mais fácil ir embora quando o seu "erro" não está crescendo dentro de você. É como se ele tivesse só atropelado alguém e, no ápice do medo, não tivesse nem parado para cuidar do mero pedestre. Mas, no meu caso, quem fugira fora minha mãe e isso tornava tudo pior, porque ela mesma era o pedestre. Se ela havia aguentado os ferimentos da batida, quais seriam seus motivos para ter corrido para longe de mim depois da dor? Eu era só um telespectador inocente, que narraria, em um futuro não tão distante, a própria dor, as próprias cicatrizes causadas pelo atropelamento seguido de abandono.
   Minha mãe ter ido embora era puramente egoísta. Ela fugiu de minha vó, de meu vô, de meu pai, de mim, de uma vida que pertencia à ela. Pertencia. Passado. Agora não é da conta dela saber se estamos vivos ou se ainda sofremos ao lembrar de seu sorriso. Porém, ao abrir aquele livro e ver sua felicidade estampada no rosto como um selo, eu sofri: ela estava mais feliz sem nós? Pelas rápidas palavras embaixo de sua foto, soube que ela estava casada e morando em alguns estados acima do nosso. Seus filhos estavam quase na idade de entrar na escola e eles possuíam um cachorro chamado Petisco. Idiota. Quem iria querer um cachorro com um nome tão tolo assim?
   Depois do atropelamento, eu parecia estar sofrendo de pena. Pena de mim, pena dela, pois enquanto eu queria atenção, ela queria fama. Era a nossa história que ela estava contando ali. A história de como uma mãe jovem saiu de casa depois do Natal e nunca mais voltou, mas que ainda se perguntava como estava a vida que deixara para trás. Vovó disse que o fim do livro compensaria e que, mesmo tortamente, tinha orgulho da filha. Eu não tinha orgulho dela; tinha desgosto de saber que, além de mãe egoísta, era uma escritora clichê.
   Não li o livro e não me arrependo. Aquele sorriso dela era o selo que eu nunca queria ver, que eu não desejava ser endereçado. Ela me atropelou e fugiu, teve a fama que queria e eu a atenção errada que desejava. Não li o livro e não me arrependo. Não li o livro porque, independente do final que ela havia criado, aquele não era o nosso final: o nosso final havia sido escrito anos atrás quando ela resolveu que o atropelamento não havia sido suficiente para fazê-la ficar.
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17 comentários:

  1. UAU. Cada vez você me surpreende ainda mais. Quando vi o tema, nunca imaginei que seu texto seria sobre família, sobre uma mãe. Mais uma vez, de parabéns!

    Beijos!

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    1. Obrigada, Bi. Seu apoio significa muito para mim!

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  2. Oi Bianca! Amei o seu texto, de verdade. Tratou de um assunto complicado com palavras doces, e deixou uma mensagem encantadora com a metáfora do atropelamento. Parabéns! ♥ Beijos, Light As The Breeze

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    1. Obrigada, Natália. Fico muito feliz que tenha gostado.

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  3. Uooooooooooooow! Que texto demais! Gostei muito de como você foi levando o texto, achei o tema meio difícil mas assim que é bom né? Que aí mexe com nossa criatividade! Parabéns, ficou demais!

    www.nahboa.com

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    1. Pior que é, Nathália. Mexe com a criatividade mesmo.
      Que bom que gostou.

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  4. o texto ficou demais!! Adorei como escreveu sobre um assunto complicado!
    beijinhos, Rê
    http://blogsonhosdeverao.com.br/

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  5. Gostei do "642 coisas sobre as quais escrever". Ficou bem legal seu texto!

    Beijos,
    http://postandotrechos.blogspot.com.br/

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    1. É um projeto legal mesmo. Fico feliz que tenha gostado.

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  6. Lindo seu texto, gostei da historia! Cada um escolhe a sua historia!
    Bjs

    http://achadosdamila.blogspot.com.br/
    https://www.facebook.com/achadosdamila

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  7. Olá,
    Gostei muito do texto, super inusitado ^.^
    Beijos.
    Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

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  8. Ai que tocante e diferente. Porque, realmente, em histórias que vemos por aí, é o pai que abandona e etc, mas aí esquecemos que existem essas raras exceções. Gostei do texto!

    Beijos!
    www.likeparadise.com.br

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    1. Pois é, gostei de tratar de algo que as pessoas não falam muito. O abandono da mãe.
      Que bom que gostou.

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  9. Nossa, bi... meus comentários nesses seus posts estão ficando clichês pq eu só consigo falar SENSACIONAL! Ou Você é fantástica! Apesar de clichê, é a MAIS PURA VERDADE! Juro!

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