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   Ela recebeu flores. Não tinha bilhete nenhum com elas, mas ela sabia de quem era; sabia das intenções porque, mesmo sem bilhete, havia um recado: "eu sinto muito". Mas ele não sentia muito. O problema sobre dizer que "se sente muito" é que as aspas se tornam necessárias. O "sentir muito" é uma citação que foi ouvida em filmes, lida em livros, representada. Ele não sentia muito mas mandou flores, então ela tentou se convencer de que ele havia mudado.
   Ela recebeu flores. Pessoalmente. Ele foi até seu quarto, pegou sua mão e beijou o hematoma que havia causado em seu braço depois de a segurar forte no meio da discussão. Ela estremeceu, porém não quis o aborrecer então o deixou se sentar e conversar. Eles conversaram e, naquela noite, ela o perdoou porque a voz de sua mãe dizendo "divórcio é só para mulheres que não conseguem satisfazer o marido" era como um alarme que nunca pararia de soar. Ela o perdoou porque na Bíblia diz pra se perdoar. Ela o perdoou porque ele era a mesma pessoa que havia prometido proteger sua vida todos os dias. Ela perdoou e só.
   Ela recebeu flores. Com o braço quebrado depois que ele a jogou contra a parede, alegando que ela havia o traído, ela olhou para as flores e perguntou-se o motivo daquilo. Era algo que ela havia feito? Não encontrando uma resposta, se fez outra pergunta. O que a floricultura achava daquilo? Que ele era um marido incrivelmente romântico e apaixonado? Porque ele parecia perfeito demais. Ele parecia ser tudo, no entanto ele era nada. Ele era a ausência de tudo que prometeu ser mas que nunca foi. A floricultura devia estar somente feliz pelo valor que ganhava a partir dos pedidos de desculpa que não apagavam as cicatrizes ou curaram os ossos quebrados. 
  Ela recebeu flores. Sua bochecha ainda estava vermelha e seu olho direito, de direito só tinha o sentido; estava roxo e inchado. Ela estava evitando o espelho e evitando o mundo externo. Havia ligado para o serviço dizendo que não estava se sentindo bem e, por ser uma empregada exemplar, seu chefe não reclamou. A pergunta que não cala é como que ela, uma mulher inteligente e gentil, se submete as agressividades de um homem que não sabe como lidar com a vida. Ele mandou um bilhete dessa vez, porém. "Me perdoe". Seu olho esquerdo, o olho que a permitiu ler o que havia no cartão, deixou uma gota cair e se fechou em seguida. Ela sussurrou que seria a última vez. Porém ela recebeu flores três dias depois. E mais flores duas vezes na semana seguinte.
   Ela recebeu flores. Pela última vez. Todos foram testemunhas e deram-lhe flores sem saber da dor e do que elas de fato representavam para aquela mulher. Ela não estava lá para ver. Estava findada, sem vida. Ela recebeu flores pela última vez porque não havia falado nada uma vez que, para ela, era muito mais fácil lidar com seu próprio silêncio do que com a gritaria dos outros.
   Ela recebeu flores, mas só queria ter recebido coragem para fugir ou coragem para gritar.
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7 comentários:

  1. Oiii1 Tudo bem?
    Ow, sério, quase chorei lendo esse texto, na boa! Muito bom!
    ...

    mundoemcartas.blogspot.com.br

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  2. Olá,
    Muito bom o texto, tão cheio de sentimento e verdade, eu AMEI, sério <3.
    Beijos.
    Memórias de Leitura - memorias-de-leitura.blogspot.com

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  3. Nossa, Bi... Eu fico espantada com o seu dom para a escrita. DE VERDADE! É incrível como alguém que não passou por uma situação, conseguir narra-la e colocar sentimentos, como você faz! Acho muito, muito incrível! Cade seu próximo livro, autografado, pra mim? hahaha

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  4. Infelizmente muitas mulheres ainda passam por isso todos os dias.
    Muito bom seu texto.
    Amei.
    Até mais.

    http://minhaqueridasophia.blogspot.com.br

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  5. CARACA, que texto maravilhoso, (n nesse sentido) mas cara como você escreve bem. SEM OR. A forma que você faz fluir as palavras são impressionante.

    Infelizmente essa é a realidade algumas. :(

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