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   Aquele aroma de primavera me deixava maravilhada. Flores espalhadas por todos os lados, crianças correndo e nenhuma nuvem no céu para contar história. Alguns casais estavam lá também. Peguei uma mocinha sentada sozinha olhando para mim. Ela lia um livro e variava sua atenção entre as palavras e as pessoas no parque. Devia ser só uma adolescente introvertida que se perguntava o que uma senhora idosa fazia sozinha no parque.
   Eu me perguntava a mesma coisa.
   Com as mãos pousadas no colo, olhando a felicidade envolver o ambiente, notei um senhor sentado na minha frente. As árvores impediam o sol de queimar nossas peles e uma longa rua nos separava. Ele estava lendo jornal, com os óculos pendendo no fino nariz e com uma expressão de quem estava concentrado. Nada parecia importar para ele além daquele papel. Nem os turistas que passavam por nós, tirando fotos e falando línguas que eu nem sabia quais eram. Nem as crianças que derrubavam sorvetes no chão; nem seus pais, que ralhavam com eles. Nem a menina que lia aquele romance chato que eu também havia lido quando tinha a idade dela. Nem mesmo eu. 
  Até que ele levantou o olhar e encontrou o meu.
  Seu sorriso se fez presente e pude ver rugas ao lado de seus olhos azuis. Ele devia ter minha idade. Talvez mais velho; uns setenta. O senhor vestia um calção azul marinho que ia até os joelhos e uma blusa branca. Tudo de marca cara. Ele devia ser um daqueles milionários que dominavam a cidade e que nunca faziam nada, pois somente pagavam os outros. Ou ele podia fazer parte da mafia russa. Não, seu sorriso era doce demais para ter sido testemunha de assassinatos. 
   Ele devia ser só um velho sentado em um banco de parque, lendo o jornal.
   Parei de o olhar. Era invasão. 
   A menina já havia ido embora quando me dei conta de que o senhor se levantou. Ele sorriu para a criança que estava prestes a se sentar no lugar que ele ocupara. Retirou os óculos e os segurou na mesma mão em que carregava o jornal. Seus passos lentos os levaram até mim. Ele se sentou ao meu lado e suspirou.
   - Você está bem? - Ele perguntou. Fiquei com medo. Mafia russa, não?
   - Sim e o senhor? 
   - Você não veio até mim hoje, achei melhor vir aqui e me assegurar de que está pronta para ir para casa. - Sua voz calma e arrastada era familiar. Era como estar em casa e andar descalça.
   - Casa? Eu não conheço você. - Disse e levantei-me. 
   O senhor não veio atrás de mim, para meu alívio. Sentei novamente em um banco mais longe. A menina do livro estava lá. Num banco verde que estava descascando, com uma roupa colorida, ela olhou diretamente para mim e sorriu. Aquilo era uma espécie de perseguição? 
   - Ele sempre vai amar você, mesmo que não se lembre. - Ela falou. Houve um momento de silêncio. Os olhos dela eram azuis e brilhavam. Brilhavam porque ela estava prestes a chorar. Mais silêncio. E então eu lembrei da doença. Eu estava esquecendo de tudo lentamente. Lembrei que éramos casados há mais de quarenta anos, o que gerou três filhos e duas netas. Um gato também. E nenhuma mafia russa. - Assim como eu sempre vou estar aqui, cuidando de você.
   Ele não era só um velho sentado em um banco de parque, assim como ela não era só uma adolescente introvertida lendo um romance chato. Eles eram a minha vida; a vida que eu, por diversas vezes, me esquecia.
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