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   Eu estou bêbada. A garganta está queimando pelo líquido que acabei de colocar para dentro do corpo e minha cabeça lateja incessantemente. Eu rio alto e meus amigos também. Não ouvi uma piada, nem pensei em algum vídeo engraçado. Não. Eu rio porque sei dos meus problemas, porque sei que eles estão lá, mas estão sendo ignorados de uma maneira tão infantil que chega a ser hilário. 
   Os vidros estão fechados. Olho para o lado esquerdo e vejo neve no chão. As luzes que vêm dos postes não fazem seu serviço direito, mas nós não nos importamos. Bebemos. Rimos. Fumamos. Choramos de tanto rir. Bebemos mais um pouco. 
   No banco da frente, rodelas de fumaça saem da boca das pessoas que me apresentaram uma alternativa. Ironicamente, a escapatória era uma rua sem saída. A verdade é que ser alcoólico é como se tornar um assassino, como ficar obeso: você acaba adquirindo bagagem que, talvez, nem esperasse. Mas a bagagem está lá, pesando, seja fisicamente ou psicologicamente; seja de uma forma positiva ou negativa e, com o passar do tempo, você nem a nota mais. Seja o número de corpos, seu peso ou quantas doses tomou, a quantidade é ignorada porque você precisa ignorar. E você precisa ignorar porque, por mais que pareça ruim para todo o resto do mundo, para você que vive naquele momento, para você que sofre por outras coisas, para você é, de fato, a solução. Para você, é a rua sem saída mais esperada. Você sabe que, mesmo que queiram fazer a manobra e tirar você de lá, não é necessário. Você encontrou seu lugar; encontrou uma mania, uma atitude que vai fazer toda a dor ir embora.
   Eu pensava assim. 
   Mas então, olhei para o lado direito daquela rua e não consegui mais ignorar. 
  A cabeça para de latejar. O cheiro do vômito que mancha meu vestido fica mais suportável, assim como a tontura. Eu olho para o lado direito e tenho a minha mais memorável experiência no banco de trás de um carro: minha filha está do lado de fora, no frio, enquanto eu e meus amigos de quarenta anos bebemos e fumamos. 
   Ela me olha nos olhos e, mesmo que tenha só sete anos, sei que compreende o que está acontecendo ali dentro. Ela está tremendo, com os lábios rachados e olhos lacrimejantes pelo vento gelado. Duas tranças, uma escoltando cada ombro, saem de seu gorro rosa. Minha menina agarra seu casaco, como se implorasse para que ele o mantivesse aquecida e desvia o olhar. Aquilo me lembra o pai dela e, por isso, aperto mais a garrafa de vidro em minhas mãos. Faço que vou beber, porém, no meio do caminho, paro. Seu olhar está de volta, condenando-me, incitando-me para que faça a manobra impossível e saia dali. Abaixo a garrafa e vejo uma mão estendida em minha frente, oferecendo um cigarro.
   Ela balança a cabeça e olha para o chão. Mais vergonha, mais realidade; tudo do que eu queria fugir já que, uma vez sem emprego, abandonada e depressiva, a vergonha é um sentimento familiar. Com a bebida, eu procuro aventuras, procuro novidades, procuro o ápice de ter matado pela primeira vez, de ter comido aquela pizza inteira sozinha pela primeira vez. Procuro me encontrar. 
    Mas, naquele banco de trás, eu noto que estou perdida.
   Saio do carro e o vento gelado me dá um tapa na cara merecido. Minha filha dá uma breve olhada no vestido e enxergo mais vergonha. Pergunto se ela quer ir para a casa de sua tia - minha única amiga decente - e ela responde que sim. Largo-a lá, beijo minha amiga na bochecha e ignoro sua preocupação. Digo que sinto muito e que a amo. Falo o mesmo para minha filha, no entanto ela não responde, pois está entretida com o cão e com a televisão gigante. Sei que vai ter a vida que merece.
   Corro para casa e procuro a rua sem saída mais uma vez. Encontro-a no banheiro, no armário que fica ao lado da pia. Olho-me no espelho pela última vez e abro o pote de remédio. Vergonha, realidade. 
   Encontrei-me.
  A realidade é que sou uma assassina, uma obesa, uma alcoólica que cansou de sua bagagem.
   Sorrio uma última vez com meus problemas, coloco tudo na boca e 



Nota da autora:
Sim, a frase acabou sem ter de fato acabado. Não foi erro de digitação. E sim, A Culpa É Das Estrelas.
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10 comentários:

  1. Nossa, que texto incrível! Deu pra sentir a dor da mãe daqui.

    Beijos!
    www.likeparadise.com.br

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    1. Nem sei como explicar o quão feliz eu fico ao saber que gostou!

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  2. Não sei pra que eu sorri ao terminar de ler, acho que foi porque gostei muito do texto e não esperava isso tudo, não leve a mal o "eu não esperava isso tudo" mas você escreve tão bem, que não da pra imaginar que vai se superar. Belo texto, parabéns! :)
    http://corujasemasas.blogspot.com.br/
    Beijos! <3

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    1. Também não sei se era para sorrir, mas fico feliz que eu tenha despertado isso em você.
      Não sei se me superei com esse texto, mas confesso que gostei demais também.
      Muito obrigada.

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  3. Eu entendi, muito esperta vc! Ela se suicida por não aguentar mais a vida que leva...
    Seu texto foi incrível!
    Bjs

    http://achadosdamila.blogspot.com.br/
    http://facebook.com.br/achadosdamila

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  4. Que texto incrível! Segurei pra lágrima não escorrer. A história é bem fascinante, achei interessante como abordou o tema sobre a experiência no banco de trás. E bate muito com a realidade, alcoolismo é devastador. E esse final....... amei! xoxo
    cactuspluie.blogspot.com

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    1. Que bom que gostou, Karina. Fico feliz de ter conseguido passar esse sentimento que queria demonstrar. Alcoolismo realmente é devastador.

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  5. Caramba, tá maravilhoso. Vai dando um aperto no peito. Sou sua fã, bi, você sabe usar as palavras para provocar emoções de um jeito quase inimaginável.

    Beijos!

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