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642 coisas sobre as quais escrever: 189

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   - Quem se apaixonar perde. - Ela disse. Todos meus amigos riram depois de um silêncio chato, pois sabiam que eu não me apaixonava. 
    Eu acabei rindo também porque ela só podia estar de brincadeira.
   Continuamos nossa relação descompromissada. Ela aparecia no meu apartamento e logo estávamos juntos do modo como ela prometia nunca mais estar. Eu gostava do que tínhamos e sua amizade significava muito para mim, ainda mais depois que mamãe morreu. Ninguém parecia preencher meu vazio, nem mesmo beber todas noites. E foi aí que minha amiga e amante apareceu, fez um ótimo trabalho me fazendo sorrir e deixei de beber, aos poucos me focando na música para completar o quadro de melhora. Ela me fez escrever de novo e até procurar uns bares onde pudesse cantar. Consegui uns horários só porque eles eram amigos dela, mas eu não era orgulhoso; aceitei tudo de bom grado e depois comemorávamos em seu quarto. Tudo estava nos conformes.
   Ela perguntou, noites depois do "quem se apaixonar perde", se eu queria jantar com seus pais. Eu ri outra vez e disse que não. Ela saiu da minha casa sem dizer mais nada; sem me dar um beijo ou um adeus. 
   Sabia que ela estava chateada, sabia que se importava comigo e que talvez ela mesmo já tivesse se apaixonado, mas não havia nada que eu pudesse fazer. Eu não me apaixonava porque não gostava de perder. O que eu não sabia era que eu sentiria falta dela na minha cama naquela noite; não sabia que o cheiro de seu cabelo e seu toque suave me fariam tanta falta. Ou que seus pés gelados um dia me trariam conforto. Sem ela ali, sentia falta de tudo.
   Recebi uma mensagem no telefone no meio da noite e vi que era dela. Desculpa. Simples assim. Ela ainda estava pedindo desculpas por algo que era minha responsabilidade? Não respondi e voltei a dormir. No dia seguinte, resolvi que iria pagar um café para ela. Seria minha maneira de dizer que a queria por perto, mesmo sem aquele rótulo chato. Não estávamos em um consenso de qualquer forma: amigo ou namorado. 
   Não a encontrei, porém. Ela não respondeu minhas mensagens, minhas ligações, nem as batidas incansáveis na porta de seu apartamento.
   Parei de tentar depois de um mês. Só soube o quanto gostava de sua personalidade quando seu humor não estava mais lá para me fazer rir. Só soube o quanto amava seu toque quando me senti vazio. Só soube o quanto amava seus pés gelados quando precisa de calor. Do calor dela. Então, depois de mais sete meses, eu ainda pensava no que tínhamos. Não via sua face nem em fotos. Era como se tivesse desaparecido enquanto eu ainda sentia falta de tudo. Amiga e amante.
   Fui em uma festa e a vi. A casa era de um daqueles meus amigos que haviam rido da aposta. Perde quem se apaixona. Vi que ela estava em um canto conversando com uma amiga e que seu cabelo estava curto. Estava com saudade de vê-la usando aquele casaco marrom que havíamos comprado em uma feira de rua. Ela mexeu o nariz de forma engraçada porque a estação devia estar trazendo suas alergias de volta. Sorri ao notar que eu sabia de cada detalhe dela e caminhei até elas. Um homem foi mais rápido que eu e tocou as costas dela. Ela olhou para ele e sorriu. O sorriso que ela dava para mim! Aquele sorriso era meu. 
   O problema é que ela fechou os olhos e ele tocou no cabelo dela e notei que encostou na pele do seu pescoço também e ela até suspirou. 
    Assim como fazia quando eu a tocava. 
    Agora ela era dele.
   - Vamos nos casar em breve! - Consegui o ouvir anunciar. Nem sabia seu nome. Meus amigos todos riram, provavelmente por ser uma piada interna. Eu não ri. Continuei sério, ouvindo meu coração bater nos meus ouvidos. Ela encontrou meu olhar e parou de rir. 
   Ouvi meu coração se quebrar um pouquinho quando soube que ela ainda pensava em mim. Ela me olhou como se falasse isso, pelo menos. Doeu porque a culpa era minha, mesmo sendo idiota para admitir. Até escrever tinha mais graça quando ela estava lá e eu não notei. Demorei meses para saber que estava me limitando na vida sem ela. 
   Minha amiga e amante me olhou e sorriu muito fraco. Piscou e ajeitou o cabelo. Acenei com a cabeça como se elogiasse e ela compreendeu. Claro que compreenderia; era ela. Abri a boca umas duas vezes para dizer algo, mas não consegui. Ele estava ali com ela e nem havia me notado. Talvez sequer soubesse da minha existência. 
   Vasculhando minhas memórias, soube o que fazer. Não emiti som algum, só consegui sua atenção e lambi os lábios secos por conta do nervosismo. Disse sem palavras audíveis, então, a única coisa que poderia.
   Falando sobre a aposta e ela, murmurei:
   - Perdi.
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15 comentários:

  1. Ai que texto lindo Bianca, posso te dar uma dica, escreva um livro, suas palavras são muito lindas.

    Um beijo grande e muito GORDO
    http://overdosederosa.blogspot.com.br/

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  2. Arrasou! Como eu adoro contos de fadas e finais felizes, vou escrever o final como um "felizes para sempre", olha:

    "Ela ouviu ou leu meus lábios enquanto eu murmurava. Só sei que ela me respondeu da mesma forma que admiti:
    - Eu perdi primeiro. Só que eu trapaceei."

    E aí viveram felizes para sempre :) hahahaha! Sério, amei seu texto. Amo seus textos! Porque você escreve tão bem (pra uma garota de 17 anos) que acaba envolvendo a gente na história, sério mesmo. To torcendo muito pro seu livro fazer sucesso, porque você merece, tem uma escrita incrível! Digo, "pra uma garota de 17 anos" porque normalmente nessa idade, a maioria das garotas de 17, ficam imaginando nos tão sonhados 18 né? Já você não. Parece ter mais maturidade para crescer mesmo. Parabéns!

    Beijos!
    www.likeparadise.com.br

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    1. Muito obrigada, Thami! De verdade. Desculpa que mais esse texto não tenha tido um final feliz... Quem sabe na próxima né?
      Fico muito feliz de ler seus comentários tão gentis também. Mesmo!

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  3. Oi, Bianca. ^^

    Não sei se você vai se lembrar, mas há alguns dias você comentou em um texto que publiquei no meu blog para esse mesmo projeto (642 coisas).
    Bom, daí eu decidi retribuir o comentário em um texto que você fez para o projeto. E fiz isso. Comentei no seu texto do tema 13. Só que eu gostei da sua escrita a ponto de ler todos os teus outros posts. E, caraca, você acaba de publicar o melhor dos 5 até agora! Hahah
    Gosto do jeito que você inicia seus textos, já estabelecendo o tom da narrativa e os traços emocionais do protagonista no primeiro parágrafo.
    Parabéns por mais essa publicação e continue escrevendo, porque ganhou mais um leitor. [:

    http://discodivinil.blogspot.com.br/

    Grande abraço!

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    1. Lembro de você sim porque também amei sua escrita. Os textos que você publica envolvendo o projeto são ótimos mesmo.
      Sobre seu comentário, muito obrigada. O melhor dos 5? Nossa, fico muito lisonjeada com seu comentário, Arthur. Obrigada!!

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  4. Ai, bi, você é demais! Outro texto incrível que você publica aqui. Parabéns!

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  5. Parece um livro! Tua escrita é outra coisa ;D muito criativa e com um estilo único

    Blog Meia Noite BR

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    1. Ai, muito MUITO obrigada, Fabi. Sério, seu comentário fez meu dia melhor.

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  6. geeeente, que texto lindo! você escreve muito bem! tá de parabéns :)

    www.blogamorarosa.com

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  7. Que lindo! Pode virar escritora que compro o livro, viu? rs Amei, Bianca! Bjs

    http://www.mayaravieira.com.br/

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    1. Já pode comprar o livro então! Só clicar no link na barrinha do lado ali.

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  8. Eu estou apaixonada por este texto, do início ao fim. Você escreve muito bem moonlight, me serve até de inspiração.

    Um grande beijo. ♥

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