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Hematomas

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   Não me pergunte a razão, mas eu saí de casa para esquecer dele. Parecia que tudo me fazia pensar no caos que ele me deixou. Os hematomas na minha perna pareciam rir de mim, mesmo que eu não estivesse bêbada nem nada. As cores se misturando, o roxo tomando conta do verde enquanto o amarelo envolvia o roxo num abraço apertado e eternamente não eterno. A bagunça do hematoma na minha perna me lembrava de mim mesma. E foi por isso, por essa ideia tosca, que eu saí de casa.
   Caminhei e caminhei. Não sorri e não chorei. Pensei e pensei. 
   O mundo pode ser muito pequeno e o silêncio pode ser muito alto, sabe? Depende de quem está pensando. Por exemplo, ele: ele me deixou porque disse que queria novas experiências; que sua visão de vida era limitada demais naquele lugar e eu, por não querer sair viajando com ele, fiquei para  trás. Ele me deixou porque falou que nosso silêncio já era constrangedor e não uma metáfora apaixonada de que não precisávamos falar nada, uma vez que muito já havia sido dito; que muito já havia sido compartilhado. Ele me deixou porque o mundo era pequeno e porque o silêncio dizia muito. 
   Fui até um bar. Ficava entre a rua que eu comprara um pijama quentinho e o restaurante chinês que tinha os piores biscoitos da sorte. O arroz de lá era bom. De qualquer forma, entrei no bar, pedi uma bebida forte e garçom me olhou e riu. Murmurei um "água com gás" e ele acenou que sim. Era cedo demais para tomar qualquer coisa que estava naquelas prateleiras e que custavam demais para um simples líquido. Ele voltou uns minutos depois e me serviu, não deixando de puxar assunto porque aquilo meio que fazia parte da personalidade de bartenders. Ele me perguntou o que havia acontecido e eu disse sobre o "dia difícil". Contei que semanas antes ele tinha me deixado e que eu estava tendo noites ruins por conta do rompimento trágico demais para mim. Eu acordava no meio da noite, acabava trombando nos móveis da sala e muitas vezes voltava pra cama antes mesmo de pegar um copo de água. Comentei que estava pensando em ir atrás dele, pagar o que quer que fosse, contanto que aquelas noite ruins cessassem. 
   - Não é impressionante como pagamos caro pra ver pessoas? - Ele comentou, enquanto eu acabava com a garrafa de água.
   - Você está dizendo, tipo, passagens de avião? Ou filmes? Shows?
   - Óculos. - Ele respondeu e eu ri.
   Não era a resposta que eu estava esperando, porém ele tinha razão. Pagávamos caro para ver pessoas. Eu paguei caro por ele, porque pessoas são como hematomas, entende? Elas marcam, elas machucam, elas destoam na pele, mas, o mais importante de tudo, elas passam. Uma hora ou outra, elas passam e você só lembra de como dói até você bater em um móvel de novo e ver a pele trocando de cor, demonstrando que está tentando se recuperar. 
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