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   Sabe o que você sente falta quando não existe nenhuma face conhecida por perto? Sabe o que mais machuca quando você sabe que não vai dormir na sua cama por um bom tempo? Sabe o que incomoda, ao deitar a cabeça num travesseiro que demorou semanas para ficar com seu cheiro? Sabe o que grita no pé do seu ouvido, quando escuta um "I love you"?
   Quando você se prepara para um intercâmbio de um ano, nunca pensa no que vai sentir, no que vai machucar, no que vai incomodar e no que vai ser gritado para você. É como uma montanha-russa alta, cheia de curvas, cheia de momentos que farão seu estômago chegar na garganta. Você está na fila, e procura não pensar no que acontecerá quando não puder mais sair do brinquedo. Você procura ignorar e pensar em outra coisa além do medo. Ficar longe de casa, sabendo que não vai voltar pra sua família no Natal, que vai passar seu aniversário com pessoas que associam seu nome com seu rosto, mas não com o que sentem de verdade por você, é como ficar preso na montanha-russa que faz seu estômago parar onde não devia.
   Sinto falta de tudo. Cada detalhe, cada pedacinho de rua, cada momento de liberdade num completar de intersecção entre dois pontos usando um ônibus com várias pessoas suadas e cansadas. Sinto falta de pessoas, de seus cheiros, de suas risadas e de seus abraços. Machuca quando vou dormir e não tem aquela janela aberta, no frio ou no calor, por onde eu podia ver o céu escuro e ouvir pessoas sendo felizes, ou sendo tristes. Incomoda saber que meu perfume não está mais na roupa de ninguém, por culpa de meus abraços apertados. Eu escuto um grito, cada vez que alguém diz que me ama aqui: eles podem me amar agora, mas quem está longe, está um dia mais sem mim, e isso fica mais perto de me esquecerem.
   Quando decidi vir, eu sabia que o esquecimento era inevitável. Ficar meses sem fazer alguém feliz, sem compartilhar seus ganhos e suas perdas; isso tudo esfria todo e qualquer amor. Eu sabia disso, mas não me importava porque estava cega pela novidade. Agora que não existe a possibilidade de sair da montanha-russa, estou me perguntando sobre como sair, quando o brinquedo já começou a andar; como não ser esquecida, quando não existem memórias recentes; ou como chamar de casa, aquilo que não sei se ainda é meu.
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2 comentários:

  1. Gente,que texto lindo.Me tocou.
    Beijos
    Ariih || diario-de-uma-adolencencia.blogspot.com

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