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Um ano

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   Como eu deveria medir um ano? Normalmente, pessoas pegam um calendário, dividido em doze meses, e cada fechar de vinte e quatro horas, um dia se passa. Quando trezentos e sessenta e cinco dias se passarem, pronto, a contagem regressiva será feita ao redor de estranhos vestindo branco, ou de uma família que mais briga do que troca elogios.
   Eu poderia medir por sorrisos. Foram mil quatrocentos e vinte e três no último ano. Poderia ter sido vinte e quatro, mas quando ele veio até mim, enroscou aquele tecido vermelho em meu pescoço e sussurrou "pronto, amor, agora você está super-brava" fazendo referência àquela "capa" que ele havia imaginado, eu não sorri. Estava sorrindo por dentro, e o chamando de idiota, mas preferi manter a máscara de irritada e não lhe dediquei um ato de amor. Um sorriso, aliás, é a atitude mais verdadeira de que se tem conhecimento. Pessoas tentam o camuflar com falsidade, sorrindo quando o interior está em caos, e isso é o que define se o ano de alguém foi bom ou não. 
   Eu poderia medir por livros que alimentaram minha imaginação ou músicas que passaram por meus ouvidos, onde a letra foi sentida em minha pele. Poderia usar qualquer outra coisa que me faça feliz de verdade, uma vez que utilizar a quantidade de vezes que vi alguém abaixar o vidro do carro só para discutir com o motorista do lado não seja algo muito agradável de se recordar. A intenção de ter preferências pelo azul do que pelo amarelo é que você pode comprar mais roupas naquela coloração, por mais que você possa ter peças amarelas também. Não existem motivos para se martirizar somente com roupas amarelas, pelo simples lembrete que "nem sempre o que preferimos é o que temos de fazer". O que quero dizer é que um ano deve ser medido pelas coisas boas, e não pelas peças amarelas feias que você não gosta.
   Eu poderia medir por orações. Contando as conversas com Ele, sem um amém no final, foram duas mil cento e nove. Eu me perdi no meio do caminho, e faz tempo que não paro para agradecer, ou contar o que aconteceu no meu dia, como se fosse só um amigo me ouvindo, o que, de fato, era. Um amigo escutando. Um amigo com poderes. O que acontece é que nesse ano, entre as duas mil cento e nove orações e conversas, eu vi muitas pessoas tatuando corações na pele, para se recordarem de amarem a si mesmas. O que eu perdi nessas duas mil cento e nove orações e conversas, afinal? Qual o problema em entender que amor é ter equilíbrio entre o dar e o receber? 
   Eu poderia medir em abraços, em uvas passa que eu deixei de lado no prato, em pares de sapato novos, em chicletes mascados, em frases de impacto que eu li ou em amigos novos. Eu poderia medir com muitas coisas, mas mantenho-me como o resto das pessoas, e uso os dias. Não é engraçado que eu diga que adoro ser diferente, porém sou como todos os outros para algo tão importante como a rotação completa da Terra em torno do Sol? É engraçado também que todos os anos eu passe pelo dia do meu aniversário sabendo que foi aquele o dia em que eu nasci, mas passe pelo dia de minha morte e não faça a mínima ideia de que será aquele o fatídico dia que irão recordar o meu último suspiro. 
   Um ano pode passar rápido para quem o mede em coisas felizes, porém passa devagar para quem lembra das tristezas, dos choros, dos telefonemas não feitos e dos términos. Como você mede um ano?
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