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Shooting Star

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   Para os supersticiosos, existem coisas que representam sorte, como trevos de quatro folhas e ferraduras. Há também atos negativos, como quebrar um espelho, ou passar em baixo de uma escada, onde alguns anos de azar serão computados na lista da vida. Não sei se acredito nessas coisas, e decido que ele não está aqui comigo pelo simples fato de que eu não sou sortuda. Ou porque derrubei o saleiro. Não sei se me contento com a ausência dos abraços dele, ou se espero por um sinal divino. Ou uma espécie de bom karma aconteça. 
   Eu estava fazendo nada além de escutar Snow Patrol e desejar que ele ficasse comigo. Era quase uma rotina. Ler uns livros, estudar, comer, olhar o tempo deplorável no noticiário, e, entre a hora que eu cozinhava e me praguejava por não ter tomado banho mais cedo naquele mesmo dia, ele aparecia em minha mente. Então eu jantava, escovava os dentes, tomava água por não gostar do gosto da pasta de dente em minha boca, pensava nele e pegava uma roupa adequada para dormir. Tomava um banho, me vestia, deitava na cama, pensava nele e adormecia com um sorriso bobo nos lábios. Entre um ato e o outro, porém, parei e fui até a janela. Tinha neve nas calçadas, e os carros passavam bem mais devagar que de costume. Pessoas caminhavam pelas ruas como se competissem por quem está vestindo a maior quantidade de peças de roupa e eu estava ali, as observando com uma xícara de chá quente. Meus dedos, antes adormecidos, tentavam se aquecendo, e tornando a vida. Olhei para o céu escuro, onde algumas estrelas tímidas apareciam e, então, como em um daqueles momentos que você sabe que não é por coincidência, eu vi uma estrela cadente. Eu entendia que alguns apaixonados pelo mistério atribuíam aquilo a um momento de sorte, então eu, como boa humana, fechei os olhos e suspirei. Ele era o meu desejo. 
   "Eu desejo que ele pense em mim. Agora, nesse momento, onde quer que ele esteja, quero que ele lembre de como sorria quando estava comigo, e de como eu o fiz feliz. Pense que ela não o ama como eu o amo, e que seu maior erro foi não notar que a pessoa mais perto do certo pra ele, sou eu. A garota confusa, como ele mesmo resolveu me chamar. Eu desejo que ele pense em mim, e que volte para o caminho que jurou nunca sair".
   Abri os olhos e tomei mais um gole do líquido quente. Quase queimei minha língua quando, em um segundo virar de xícara, meu telefone tocou. Era uma mensagem. Meu coração disparou e eu larguei a xícara na mesa de centro. Minhas meias coloridas quase escorregaram no chão e eu fui até o confortável sofá cinza: meu celular está lá; um objeto inanimado que não sabe a importância que está carregando. 
   "Seu saldo expira em dois dias. Para receber os nossos planos, envie uma mensagem para o número *8000 e descubra qual o melhor para você!" Certo. Não há sorte, e nem existe gênio que sai de uma lâmpada mágica e realiza três pedidos. Meu chá ia ficando gelado, e, se eu quisesse que ele me abracesse outra vez, teria de descer para pegar um táxi e ir até sua casa. Estaria fazendo papel de tola, e, se a nova namorada estivesse lá, eu diria que foi só um devaneio da madrugada, e daria as costas outra vez. Naquele dia, porém, seria por minha decisão. 
   Não existem finais felizes, mas aquela estrela cadente me fez notar uma coisa: eu precisava rir. Aquela mensagem da operadora me fez rir de ironia, mas me fez rir. E era aquilo que eu precisava. Ele se foi, e eu ainda não sei se acredito em superstições, mas a vida não é feita de certezas, é? Não. Ela é feita de estrelas cadentes que não fazem seu trabalho, e de pessoas que as culpam por seus fracassos. 
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2 comentários:

  1. Que texto lindo Bih,foi profundo,tirado do fundo do coração.Muito lindo.
    Bjs
    diario-de-uma-adolencencia.blogspot.com

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    1. não tenho agradecer todo o carinho que tu me dedica, viu? <3

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