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A semente do amor

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   Fiz uma plantação de amor, bem atrás do meu lar. O jardim, com uma cerca baixa, na cor branca, era um dos meus maiores orgulhos, e acabei comprando as sementes com meus pais e minhas professoras do primário. Pode ser que eu possa ter roubado umas daquele menino loiro de olhos claros, que levava sua lancheira azul de um lado para o outro, a balançando como se seu alimento não pudesse ser esmagado (era sempre um sanduíche e uma maça, da qual ele nunca tocava). Também pode ser que eu tenha barganhado algumas em um jogo de cartas, com minha avó, que sempre roubava de mim. 
   Eu comecei a cavar a areia quando entendi o que significava o amor. Quer dizer, quando acreditei entender o que era aquele sentimento, porque, ao conhecer ele, eu deixei de entender e passei a gostar de me iludir. Enquanto a terra sujava minhas mãos, eu via pessoas chegarem e irem embora. Nunca me importei com o tempo que elas permaneciam em meu lar, porém sempre me apeguei na forma como elas me abraçavam. Os olhos fechados faziam toda a diferença do mundo. Enquanto a terra sujava minhas mãos, eu aprendia que amor não é prender alguém, e sim deixar a pessoa ir, sabendo que, de uma forma ou outra, ela sempre voltaria. 
   Ele, ao contrário de todas as outras pessoas que eu acreditei que retornariam, não tornou a me chamar de "sua". Com ele, o menino das palavras, eu não me importei com ciúmes, ou com possessividade, porque tudo naquela relação era recíproco. Entretanto, estar com ele fez com que uma tempestade chegasse rápido, não me dando tempo nem de pensar em fazer algo para que minhas mudas de amor não fossem destruídas. Estar com ele fez com que a cerca branca se quebrasse, e o amor ficasse com alguns buracos, como se tivesse chovido pedras de gelo. Com ele, o príncipe encantado, meu jardim se tornou vazio.
   Haviam ainda as flores da generosidade, da bondade. As sementes de amor ainda estavam lá, só que, sem a presença dele, eu desisti de cuidar de todas que estavam ali, porque não tinha força para seguir em frente. Não quis saber de finais felizes, nem de uma nova cerca. Eu quis ele, porém ele não me estava disponível. No fim, não importou quantas pessoas haviam me dado amor, quantas pessoas haviam me ensinado como regar as sementes, nem quantos abraços eu havia recebido; sem ele tudo pareceu sem sentido, inclusive cultivar um sentimento que, naquele momento, parecia ser só digno dele. 
   Assim, sem querer, parei de amar.
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2 comentários:

  1. Biaa tá muito lindo.Quase chorei,serio mesmo.Tenho certeza se mandar esses seus poemas pra uma editora,vão amar.
    Beijos
    Diario De Uma Adolescencia

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