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Aniversário

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   É meu aniversário. O relógio marcou nove e vinte da noite e eu sequer recebi um abraço. Abri a geladeira, e vi que estava quase sem comida, o que me fez pensar se eu deveria ser mais cuidadosa com as compras do mês e fazer uma lista do que eu precisava, e da quantidade necessária. Lembrei, então, que o mês já havia acabado, e eu só havia esquecido da data de ir até o estabelecimento enorme, com piso claro, boa iluminação e alguns atendentes não tão bem humorados. É meu aniversário, mas eu estou sozinha.
   Dez e três. Estou sentada no sofá, olhando para a televisão desligada. Penso nele. Ele é aquele sentimento que eu tenho quando estou na beira da piscina, olhando para a água cristalina, sem saber quantos segundos aguentarei imersa. Não sei também se ela está gelada, ou se vou ficar mais que uma hora ali. Estar com ele não me deixa saber por quantos segundos eu terei de segurar meu fôlego, esperando que ele pare com sua crise de ciúme, para que eu não grite, enfurecida. Estar com ele não me diz que se eu vou me sentir confortável, ou se vou estremecer, como se a água estivesse gelada. Estar com ele é não saber se vai ser até amanhã ou até o final da vida. 
   Em alguma parte do mundo, sei que alguém está ficando mais velho também. Talvez essa pessoa se importe que somente o trono do Papa alimentaria a África inteira por quinze anos, com fartura, ou, quem sabe, ela só deseje um pedaço de bolo de chocolate. Possivelmente ela já amou muitas pessoas, mas pode ser que só é um ser que respira, mas que não inspira ninguém. Existe até a possibilidade dela ser como eu, porém pode ser que ela não esteja sozinha hoje. Eu estarei invejando-a. É meu aniversário, mas ninguém se importa.
   Essa questão sobre "se importar" é um fato engraçado da vida. No dia em que você completa mais um ano, o mundo não para, e o máximo que você recebe são cartões e lembranças compradas de última hora. Ainda sim, você se importa que alguém lembre. Você ainda fica do lado do telefone, esperando que ele ligue, porque se apegou em um sentimento hediondo, chamado esperança. Você espera ganhar presentes, espera não estar sozinha, espera que alguém se importe. Você só espera. 
   Onze e cinquenta e nove.  
   Você não ligou, e eu continuo sozinha. É provável que aquela outra pessoa que estava de aniversário, do lado oposto do mundo, já não esteja mais com o bônus do "não vou lavar a louça, pois é meu dia especial", mas, seja como for, não faz diferença. É só uma data. Ainda sim, é meu aniversário, e eu estou me apegando nesse último minuto para que você dê sinal de vida, e me telefone. Isso é idiota?
   Tudo bem, ainda tenho o meu bônus de "posso ser tola mais uma vez, pois é meu dia especial".
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4 comentários:

  1. Ótimo! Adorei demais :)) Bi se eu quiser lhe enviar um comentário sobre o seu livro pra que email eu mando?

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    1. Fico feliz que tenha gostado. Sobre o livro, pode ser pro meu particular (bianca.444@hormail.com) ou para o email que tem lá no final do livro ;)

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    2. Ok obrigado :))

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