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Coisas que deixei de saber

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   Eu tenho escrito bastante sobre o amor porque, pela primeira vez em séculos, meu coração está aquecido por algo muito mais difuso que sangue. Eu tenho pensado bastante em um certo alguém que não pensa em mim, e isso dói. Talvez não existam metáforas boas o suficiente para explicar, mas é como se eu tivesse ganho um pedaço do céu, e, em questão de segundos, com um sorriso irônico, a vida havia me tirado aquilo.
   Sem as palavras dele, as minhas se tornaram vazias. Passaram a ter mais significado, porém se transformaram em uma dor imaginária, o que as converteu em palavras ocas. Não me pergunte como isso é possível, porque nem eu sei se é, mas faz sentido em minha mente confusa, então será assim que eu irei as associar. Ocas, vazias. Quando ele estava aqui, o céu passou de azul para "cor de felicidade", e o beijo se tornou cura para saudade. Quando ele estava aqui, eu sabia como era me sentir plena, entretanto, agora, eu sou as minhas palavras.
   Não sei quando aconteceu, mas penso nele todas as noites. Não sei como ocorreu, mas ele se tornou o meu passatempo favorito; ele e minha mania de nos imaginar juntos, talvez casando, talvez brigando e consertando a discussão com cócegas e uma xícara de café pra ele, e uma de chá para mim. Não sei como sucedeu, mas ele não é só mais um alergia, uma música, e um RG. Ele é o menino das palavras, que não pode comer porco, que já olhou aquele filme que eu pensava que ninguém mais havia visto e, de lá, havia tirado sua música favorita. E ele é o menino sem sobrenome. 
   Eu deixei de saber dos detalhes sobre ele, porque ele não quis mais me contar. Eu deixei de perder o sono, pois estava ocupada com ele em minha cabeça. Eu deixei de admirar a incerteza do amanhã, e desejei poder saber sobre meu futuro. Desejei saber se ele estaria nele. Eu deixei de gastar tempo com conversas vagas, e deixei também de amá-lo. Não, não deixei de amá-lo, eu só procurei esquecer que o amei tanto, mas tanto, que a intensidade corroeu o tempo, como traças que adoram madeira. 
    Não sei muito sobre ele, agora. Descobri que ele se casou, e que tem aquele casal de filhos, que tanto desejava, e que se formou em odontologia. Ele tem a família da qual queria se orgulhar, e ouvi dizer que sua esposa é uma das mais bonitas da cidade. Eu não me importei com isso, no entanto. Eu só me importei comigo e com minha traiçoeira falta de saber. Se eu não tivesse me importado tanto em descobrir o que aconteceria no futuro, ele ainda estaria comigo, possivelmente. 
   Mas não importa, porque, um dia, eu não procurei saber seu sobrenome, nem sobre suas namoradas anteriores, e, então, ele se tornou só uma coisa que deixei de saber.
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2 comentários:

  1. Nossa muito intenso! Ficou lindo o texto. Vc escreve baseado na sua realidade ou é uma história? Bjss

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  2. alguns dos seust texto, esse por exemplo, eu tenho vontade de imprimir e colar na testa de tanto que me identifico. Por um momento vc é tao proxima de uma pessoa, sabe todos os detalhes, defeitos e qualidades, mas de uma hora pra outra tudo muda. Isso é a vida.

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