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   Havia aquele cheiro de grama cortada nas manhãs de domingo, quando eu dormia no quarto da frente, na cama grande, entre o casal que me ensinou o que era amor e que bicos de bebê podem fazer seus dentes ficarem tortos. Havia um potinho de metal, imitando uma lata de tinta, onde havia o único giz de cera roxo de toda a escolinha; um dia, brigando por ele, a lata caiu da janela, e as uvas e arco-iris completos se foram junto com o giz. Havia também aquele cheiro de protetor solar misturado com a maresia, que apesar de corroer os portões de ferro, mantinham aquele ar de familiaridade nos verões escaldantes e nas caminhadas pela areia, sentindo a água do mar vir molhar meus pés, timidamente. As ondas depois das seis horas eram sempre as melhores; quentinhas pelo sol do dia inteiro e lentas, chamando atenção para a imensidão azul e solitária. 
   Talvez haverá sempre alguma coisa que me faça lembrar de situações específicas, e acho que lar é um desses exemplos. Aquela sensação de segurança, de estar aquecido, e de poder sair dançando, cantando, pulando por aí. Lar é o lugar que você quer voltar quando o dia está ruim; é o lugar que você permanece quando a chuva fica mais intensa; é o lugar em que você fica nervosa para manter tudo organizado quando alguém diferente virá. Lar é tudo isso, mas é, principalmente, o que você mantem no coração.
      Em diversas vezes, as coisas não saem como esperamos e isso pode nos fazer crescer, porém, o que faz lar ser considerado esse lugar tão especial e nostálgico, são as memórias construídas em cima dele. Árvores de Natal, a primeira tentativa de cozinhar, o primeiro machucado feio, as noites de pesadelos ou tempestades. Lar é o lugar em que te faz lembrar das coisas idiotas e você simplesmente não se sente idiota; se sente em casa. 
   Quando o tempo passar, os cabelos esbranquecerem, a pele ficar enrugada, e os netos correrem pela casa, você vai querer voltar. Vai querer as broncas que levou de seu pai, sentada naquela poltrona, assim como vai querer a mesa em que tentava resolver aquelas questões de matemática - as mesmas das quais você acabou desistindo, sem ter terminado, e ido assistir televisão ou fazer qualquer outra coisa. Vai desejar seus pais de volta, mandando você arrumar o quarto ou alimentar o gato. 
   O tempo passa, mas o lar é o lugar em que todos os sentimentos vão te fazer pensar nas coisas que fez de errado e no que deixou de dizer. Lar é onde o coração está, e é pra lá que voltamos no final; querendo ou não, quando morrermos, talvez a vida não passe por nossos olhos, mas sim aquele beijo na testa que sua mãe deu, ou aquelas patinhas brancas feitas com farinha, na manhã de Páscoa. Lar é onde o seu coração está e é onde você sempre pode voltar, mas se quer um conselho: não espere sua mente te convencer de que aquele não é mais o seu lugar para regressar ao lar. 
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