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The Funeral

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   Não era só pelo cabelo, que não voava mais, quando eu colocava a cabeça um pouco para fora da janela do carro. Não era só por meu corpo cansado e sofrido, que nem me aguentava em pé, e tampouco era pela dor que eu sentia, tendo que morder meus lábios para não gritar. Ninguém poderia fazer nada por mim, então por que eu iria ter um humor desprezível e deixar aquilo me dominar? Não fazia sentido, porém, no geral, a situação toda não fazia sentido.
   Eu era do tipo que pagava as contas antes de vencerem, para ter um desconto de cinco por cento, assim como era do tipo que tinha um lixo específico para cada material. Eu planejei toda minha vida, planejei cada momento, tentando me precaver dos erros mínimos que fossem, entretanto, meu erro maior for não ter prevido o que estava para chegar, em uma consulta médica tão banal como aquela. Acho que não acreditamos que coisas ruins possam acontecer conosco porque aquela imagem de que está tudo bem quando você pode caminhar, pode cantar, pode pular por aí, sem sentir nada te atrapalhando, está impregnada em nosso corpo. Eu podia fazer todas essas coisas, no início, mas, depois, parecia que era psicológico, a falta de capacidade de movimentar meu próprio corpo.
   A morte é engraçada, e zombeteira, não é? Eu fiquei com a consciência pesada por aqueles que teriam de limpar a bagunça que eu havia deixado, e por eles, e somente eles, que eu tentei aguentar até quando respirar não fazia com que eu tivesse vontade de chorar. Em um tarde ensolarada, ao dar um suspiro, um gemido saiu de minha boca, sem ao menos eu notar, e eu notei que era a hora de desistir, e aposentar a esperança. 
   Eu deixei lençóis amarrotados, assim como umas camisetas mal dobradas no armário. Deixei também bilhetes simples, na segunda gaveta do criado mudo, com a intenção de fazer com que não pudessem rir da graça que a morte estava tentando fazer. "Não arrumem nada" eu escrevi, com letras tremidas, devido a dor que era colocar toda minha força naquele ato tão comum aos olhos saudáveis dos que não estavam em minha pele. "Deixem a bagunça como está" estava escrito em outro. 
   A graça que ela quer proporcionar é a seguinte: quando somos crianças, sua mãe diz que você tem que limpar seu quarto porque é sua responsabilidade. Você sujou, você limpa. E, então, quando a doença me consumiu, eu pude deixar a cafeteira com o líquido escuro que me era proibido, pude deixar minhas meias felpudas fazendo companhia para as pantufas, no chão. Pude deixar o copo de água ali, sem me importar que seu lugar era na cozinha. Eu pude deixar a toalha molhada, no banheiro, até que ela mofasse. Eu quis assim, quis que ninguém arrumasse minha bagunça, porque não queria que ninguém estivesse fadado a organizar a vida findada de uma doente. Se a morte pudesse falar algo para consolar, ela diria que todos os finados tinham esse bônus, o de fugir da responsabilidade de arrumar sua bagunça.
   Eu pedi que ninguém arrumasse nada porque os amava com toda a intensidade possível. Fiz isso para que não se apegassem a coisas, e se esquecessem de lembrar a razão pela qual estariam juntando minhas tralhas, e doando para alguma caridade, ou vendendo em um bazar barato de esquina. Eu quis que eles deixassem lá para que notassem que eu era só uma vida que havia ido embora, e que aquela era a única certeza que eles tinham. Que nem toda desordem pode ser resolvida, e nem tudo que parece estar resolvido, está organizado.
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6 comentários:

  1. Ai que lindo *3* amei!
    Ei desculpa pela demora pra te responder lá a pergunta da ask, pedindo afiliação, basta você me por na sua elite e me avisar lá no meu blog para mim fazer o mesmo...

    A propósito, amei seu blog! Seguindo
    Beijos,
    Sring in Paris

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  2. Que bom que gostou, Bruna :D já te coloquei no "blog parceiro", viu?

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  3. Que lindo! É um texto irônico e engraçado. Até copiei no meu bloco de notas, rs. Já a música, eu tenho um amigo que sempre me falou dessa banda, eu nunca tinha parado para ouvir, aí quando li o nome no vídeo resolvi ouvir e gostei muito! Adorei o texto :)

    Beijos, Ana <3
    Avilaf Ana

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    1. Eu gosto da melancolia da música, ela me acalma. Fico feliz que tenha gostado tanto do texto a ponto de copiar para seu bloco de notas haha espero que continue acompanhando o blog, Ana :)

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  4. Realmente se eu fosse sua professora de português eu te pedia uma redação toda semana, rs. Sério você escreve muito bem, meus parabéns. Já te disse isso sei lá quantas vezes, mas amo seus textos <3

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    1. Awwwwn, você não sabe o quanto isso me deixa feliz. Obrigada mesmo!

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