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These four walls

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   Eu não a conheci. Não estava no momento que a garota de cabelos negros e lisos aprendeu a ler, e tampouco compreendi um pouco da sua maneira de ser, fosse quando ela perdesse em algum jogo, ou ajudasse outra pessoa necessitada. Eu não estava presente quando ela se maquiou pela primeira vez, nem quando ela pegou sua bolsa, as chaves de casa, e o telefone. Eu não estava com ela quando a irresponsabilidade de um estranho mudou a vida de todos ao seu redor, colocando fim a vida dela, porém eu chorei. Eu chorei como a tempos não chorava, pelo simples fato que eu poderia ser ela. 
   Eu chorei quando ouvi um "sua filha estaria orgulhosa de você, pode ter certeza" porque era exatamente isso que passava em minha cabeça. Em meio a tantas perguntas, tanta raiva e tanta alienação sobre o que se passava antes de seu último suspiro, eu me sinto extasiada, de uma forma negativa, incrédula, pensando que quando ele, que tanto se preocupou, que tanto cuidou dela, voltar para casa e escorar a cabeça na porta de madeira do quarto de sua pequena, a coragem vai se dissipar de suas veias, porque ele sabe que ela não vai mais voltar. Nunca mais. Eu sinto muito por isso também.
   Talvez sua mãe pense que se ouvisse a voz dela mais uma vez as coisas seriam menos torturantes. Eu não sei se ajudaria, porque, agora, vendo as lágrimas rolarem, os corações palpitarem mais forte, e sentindo a certeza que nunca mais seu sorriso será apreciado, se faz a certeza que acabou e que nada nesse mundo a trará de volta. 
   Dizer essas coisas, comentar sobre essa obviedade toda, não ajudará em nada. E, por mais que eu estivesse desesperada para que aquele carro tivesse ido em um destino diferente, que álcool não estivesse envolvido, e que eu não precisasse estar aqui, tremendo por um relato verídico, que tocou cada coração de uma forma diferente, a verdade precisa ser dita em voz alta para que consigamos deixá-la ir. Não que superar seja possível, porque não é, mas, talvez, só se focar nos momentos bons e pensar que ela usou seu tempo aqui de uma forma boa, fazendo sorrir, marcando cada pessoa quem conheceu, porque ela era especial. E, céus, eu sinto tanto por ter que usar o verbo ser no passado... Eu sinto muito. 
   Eu compreendo que dizer que sinto muito não fará nada ser diferente, entretanto essa é a minha ligação com a parte humana; coisa que esse homem que bebeu e saiu por aí, sem medir as consequências, não possui. Não vou julgá-lo, porque esse não é meu objetivo, então só direi que preciso saber que a justiça será feita. Preciso de uma confirmação disso, pois já basta aquele lençol que foi levantado, revelando um rosto pálido, gélido e sem vida. Já basta a tristeza de uma morte como essa, que poderia ter sido evitada.
   Arrependimentos, dores, descrença, orgulho, se misturam e, agora, fazem parte do caráter de pessoas que conheceram Bruna Lopes Capaverde, 15 anos, que perdeu a vida na madrugada do dia dezesseis de novembro de 2013, em um acidente de carro, provocado por um motorista embriagado. Não tivemos uma última noite para se despedir, nem um último "eu te amo" para dizer, e eu sinto muito, porque é só isso que eu consigo dizer. Isso e que não quero que esse homem fique impune, porque uma nova estrela pode até estar brilhando no céu, mas eu preferia que ela não estivesse lá dessa forma. 
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2 comentários:

  1. Olá, acabo de visitar seu blog e segui-lo. Lhe desejo foco, sucesso e força. Que conquiste muitas realizações através do mesmo. E também convido você e seus/suas leitores/leitoras a conhecer o meu blog: toobege.blogspot.com.br . Beijinhos e espero você lá também *0*

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    1. Muito obrigada, Mariana. Espero tudo isso para você também! Espero que continue acompanhando os posts :)

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