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Talvez você não saiba.

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   Talvez você não saiba, mas, naquele momento que você foi embora, dizendo um "eu te amo" com um tom de voz rude, que só fora dito por mania, por medo de, possivelmente, ser o nosso último, eu tranquei a porta e permiti que a primeira lágrima caísse. Você disse boa noite e eu senti como se fosse um pequeno espinho presente em sua saliva, pronto para me atingir quando você desse as costas.
   Eu escoro a cabeça na porta, enquanto escuto seus passos cada vez mais longe de mim. O choro é calmo, só está lá pra me lembrar que eu fui precipitada em pedir que você me deixasse em paz. Às vezes falamos coisas sem querer, não é o que está na alma; é o que está pairando pela cabeça em um momento de insanidade, afinal, eu jamais gostaria que sua voz não me incomodasse mais. Eu jamais iria querer que você parasse de me acordar, com ligações bonitinhas, me dizendo para ter um bom dia, e dizendo o quanto me ama. Eu jamais iria querer que você aceitasse que eu fosse embora, de uma forma tranquila e não dramática. Eu jamais ia querer que você não me quisesse. 
   No relógio desposto na parede, é como se os números se transformassem em palavras de cinco letras. "Agora". Antes tarde do que nunca; era isso que pairava em minha cabeça. Eu não estava mais chorando, entretanto era inegável que aquele nó em minha garganta estivesse me deixando em plena consciência que só de abrir a boca, eu voltaria a ser a dramática de sempre, que se arrepende das besteiras que fala. 
   Eu desisti e peguei o telefone antes que minha coragem evaporasse. As mãos trêmulas agarravam o plástico com uma força desnecessária, mas que, ainda sim, parecia fazer todo o sentido no momento. Parecia, até mesmo, combinar com a atmosfera tensa. Depois de esperar pelas cinco chamadas silenciosas, que faziam as batidas de meu coração se sobressaírem, você atendeu e minhas narinas arderam, indicando que eu estava prestes a desabar. 
   - Eu sinto muito. - Murmurei, abaixando a cabeça e fundando. Talvez você já soubesse que eu estava arrependida, e estava me martirizando pela idiotice.
   - Eu sei que sente. - Sua voz era calma e reconfortante. Não havia raiva ou desgosto, como eu esperava.
   - Continue cuidando de mim, e me amando mesmo quando eu pedir que não o faça. 
   - O amor que eu sinto por você não me permite respeitar o que você pede quando isso vai contra o que eu devo fazer. Meu destino é te amar, te irritar e cuidar de você como se fosse a única coisa da qual eu tivesse responsabilidade sobre. 
   Acho que é de nossa natureza dizer as coisas erradas, na hora errada. Mas, às vezes, o que torna alguém especial é esse lampejo de sorte que vai fazer a coisa mais certa ser dita em um momento em que fora necessário deixar o ego de lado. Talvez você não saiba, porém o seu "eu te amo" salvou meu dia. 
 
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