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Angels

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   Houve uma vez, em que eu vi um anjo caído no chão. Suas vestes brancas estavam sujas e nada apresentáveis; seus cabelos estavam desgrenhados e até mesmo sua feição estava diferente do esperado. Todos ignoravam sua presença. Passavam por ele, alguns jogavam umas moedas, já outros nem mesmo dirigiam um olhar à ele. 
   - Você me vê, não é? - Ele perguntou, levantando seu rosto pela primeira vez. Eu estava ali, parada, atônica a situação completamente nova e estranha. Sua voz continha quase que um pouco de ironia, e sua expressão estava amena.
   - Eu não deveria? - Perguntei, notando que estava estorvando as milhares de pessoas que passavam pela avenida poluida sonoramente e visualmente. Cartazes colados nas paredes mal pintadas, folhetos ao chão e propagandas de diversos serviços faziam companhia, na calçada. 
   - Deveria sim. - Ele disse, se levantando. Eu podia jurar que ele possuia assas, mas meus olhos não conseguiam se fixar em outro lugar a não ser seus olhos. Era como se um imã me atraísse. Eu não conseguia me deter nos detalhes, fossem eles as condições das roupas do anjo ou seu corpo, em si. - Só que as pessoas, no geral, não dão. 
   - Por quê? - Eu dei um passo para o lado, saindo do fluxo caotico de pessoas indo ao trabalho, ao médico ou a qualquer outro lugar. 
   - Uma menina parou aqui hoje. - Ele disse, com meio sorriso. - Ela chorou do nada, e segurou a mão de sua mãe mais forte. Ela retirou um doce de sua bolsa e me entregou. Sua mãe a olhou confusa e perguntou porque ela havia colocado o doce no chão. 
   - No chão? - Perguntei, virando um pouco minha cabeça para o lado, para demonstrar que estava confusa.
   - A mãe não conseguia me ver. - As pessoas a minha volta começaram a me olhar estranho e fiquei ainda mais perdida. - Eles acham que você é louca. - Ele disse, baixinho. 
   Eu me virei para frente, onde o asfalto estava, e os carros passavam rapidamente. Ninguém prestava atenção no pequeno menino ao colo da mãe, sorrindo abertamente para um mendigo de rua. O mendigo sorriu de volta e começou a fazer caretas, fazendo o garotinho sorrir ainda mais. Ou talvez ao casal de idosos, atravessando a faixa de pedestres de mãos dadas. O amor entre eles parecia ser palpável. Nem ao adolescente, de uns quinze anos, de olhos claros e cabelos escuros, sentado em uma lata de tinta enferrujada, cantando que tudo o que precisávamos era amor. Amor era tudo que precisávamos.
   - Eu sou louca? Você não existe? - Ignorei a minha observação sobre os acontecimentos ao meu redor e franzi a testa ao encarar o anjo. Eu não tinha certeza do porquê eu tinha certeza que ele era assim especial, mas eu só... eu sentia a paz transmitida dos olhos dele. O rapaz não possuía asas. Ele não era um anjo.
   - Você consegue me ver, consegue me ouvir... você não é louca. - Ele disse, rindo. - E mesmo que eu não estivesse aqui, e fosse tudo algo da sua imaginação, para você, por um mero segundo, eu seria real. Ter alucinações não é algo louco, afinal, em sua cabeça, é real. O diferente não é maluco; o diferente é só diferente. - Ele deu de ombros e eu me perguntei quem era ele. Um mendigo comum, um empresário que perdeu tudo do dia pra noite, ou talvez só coisa da minha imaginação mesmo.
   - Você faz parte da minha imaginação?
   - Eu sou real porque você quer me enxergar. Eu estou aqui, nessa rua imunda, pra mostrar que só quem quer ver os detalhes, consegue enxergar de fato. Muitos desviam, muitos jogam moedas, muitos quase cospem em mim com o olhar de desgosto. Você parou aqui para me olhar porque é especial.
   - Especial? - Eu ri com escárnio. 
   - Só as pessoas especiais conseguem ver os milagres. - Ele disse, sorrindo fraco. - E eu acho que os anjos são um milagre. - Ele piscou e eu fiquei ainda mais confusa.
   "Talvez se você abrir os olhos, e olhar de verdade, irá enxergar os detalhes que fazem o mundo ser um milagre. Você não pode enxergar de perto, porque assim será facilmente enganado; mas olhe de longe, onde um ponto de vista inteiro poderá compreendido. Um anjo, uma forma de amor, uma forma de respeito... seja o que for, qualquer coisa que faça o dia ruim valer a pena pelo seu simples detalhe; olhe o mundo como uma coisa surpreendente, que pode te dar novas chances para errar ou acertar a cada dia".
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