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Adeus.

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   Eu estava triste naquela manhã, ela não havia aparecido na escola, e, quando eu havia passado na casa dela após estar sozinha o dia inteiro, ninguém me atendeu. Eu liguei a noite inteira. Dormi ao lado do telefone residencial e do celular rotineiro que eu sempre usava para mandar mensagens sem sentido para minha melhor amiga esquisita. Eu não soube nada dela por dois dias e os "e se ela.." se consumiam. Ninguém me atendia na casa dela, nem pelo celular. Não que eu pensasse que estava sendo ignorada, afinal, não havia nenhum carro na garagem, nenhuma luz ligada em sua casa, já tão familiar para mim; eu sabia que algo estava errado.
   Eu chorei as três noites que antecederam a notícia por medo. Ou sempre fui de sofrer por antecedência, por receio das coisas que minha cabeça criava quando eu sentia que uma notícia ruim estava por vir. Mas daquela vez eu sabia, eu sabia que não era besteira da minha cabeça, que já me enganara tantas vezes antes. "Olá" falei, com a voz falhada, em entusiasmo por ouvir a voz da mãe de minha melhor amiga do outro lado do telefone. Entretanto sua voz era baixa e saiu em sussurros. "Posso falar com a..." "ela... meu amor... minha pequenina... ela morreu". Eu vacilei um pouco para o lado do sofá, em descrença no que acabara de ouvir. Era uma brincadeira, só podia ser! "O quê?" eu perguntei, baixinho, como se estivesse apostando em algo: se ela não ouvisse a minha pergunta, não entenderia meu desespero, e poderia acabar com aquela besteira de brincadeira de mau gosto. "Ela tentou se matar, bi". Aquelas palavras rondaram a minha cabeça pelo longo minuto, que pareceu uma eternidade, em que ela ficou em silêncio após dizer o que acabaria com meu mundo. "e ela conseguiu". 
   Eu não tive forças para ficar de pé, por isso pedi desculpas e desliguei o telefone. Me atirei no chão e agarrei os cabelos. Ela não era só uma daquelas amigas que você fica feliz por ver todos os dias, ela era a garota que me fazia rir, quando eu queria gritar. Era a idiota que havia posto a prova que eu também podia amar. Era ela a minha confidente, e eu, a dela. Eu só queria... só desejava explicações. Eu descobri que era tudo verdade quando, no dia seguinte, seu armário estava com flores, velas, ursinhos, cartões, tudo em memória de uma alma perdida. Eu gritei naquele instante. Eu não havia chorado até aquele momento, mas toda aquela loucura não parecia estar de acordo com a minha realidade. Eu bati no armário dela, berrando ao céus que necessitava dela, perguntando qual a razão de tudo aquilo. Tentaram me acalmar, mas eu sentia uma faca cravada no meio do peito, que só incomodava, incomodava muito, mas não matava. Não me tirava do sofrimento, pelo contrário, só me mostrava ainda mais como era sofrer de verdade. Eu nunca tinha entendido muito como era a ter um pedaço arrancado de você, porque eu sempre escutava isso das pessoas que perdiam algum ente querido, entretanto aquela definição parecia fazer sentido quando eu vi seu caixão descendo, indo em direção a uma cova escura, vazia, gélida. 
   Eu lutei com todo o meu ser para não chorar no enterro de minha melhor amiga, e consegui. Consegui até notar que eu tinha arrependimentos. Eu me arrependo de nunca ter dito que ela jamais precisou ser perfeita fisicamente pra que eu soubesse que ela merecia o melhor cara do mundo para tomar conta do coração ferido dela. Eu me arrependo de não ter notado os cortes nos pulsos dela. Eu me arrependo de não ter sido  a metade da boa amiga que ela foi para mim. Eu me arrependo de colocar flores na lápide dela agora e não ter dado uma pequena rosa ou um lírio que fosse, enquanto ela estava viva. Eu jamais falei da razão por amá-la, da razão de sentir que necessitava dela ao meu lado todos os dias. Eu talvez faça parte da razão pela qual ela se matou. Talvez eu seja a razão pela qual ela tenha aguentado mais tempo. Ela não me deixou completamente no escuro. A escola acabou, e eu me formei. Já tinha tudo em vista, um futuro planejado.
   E então, pelo correio, chegou uma carta com um endereço conhecido. Era a casa dela. Talvez aquela carta tenha me dado forças que eu jamais saberia de onde tirar para poder me perdoar, para poder superar o fato de que eu não fui o suficiente para a melhor amiga do mundo continuar viva. "Oi, moça. Você se formou, então? Não poderia esperar menos de você" era a letra dela. A carta pareca ter o cheiro que eu sentia toda vez que a abraçava fortemente todas as manhãs. "Bi... eu sei que você quer me matar, mas olhe, eu estou morta. Desculpa pela piada infeliz, mas essa é a verdade que você vai ter que conviver. Eu te amo, sabe? Eu não me matei porque seu amor por mim não foi o suficiente, jamais pense isso! Eu me matei porque, por dentro, já estava morta antes, e isso estava me torturando aos poucos, o que era ainda pior" Agarrei a carta com toda a força e dor que restavam em meu ser e amassei. A joguei contra a parede e gritei por tudo que estava voltando a tona. Arrependida, voltei e abri o papel novamente. "então meio que você vai ter que considerar isso pra me perdoar, ok? Olha, eu jamais saberei como vai sua vida, e, antes de morrer, isso foi a coisa que eu mais considerei. Sabe, minha chata, eu nunca vou poder te proteger de tudo, nunca vou poder fazer com que você não chore, que não seja magoada por alguém, ou que se torne uma biscate dos infernos - NUNCA SE TORNE UMA BISCATE DOS INFERNOS, OK? EU VOLTO DOS MORTOS PRA BATER EM VOCÊ! - mas eu só pude garantir que você fosse feliz por alguns dias da sua vida. Isso é mais que suficiente pra mim. E sei que você está chorando, que está me odiando talvez, porém você me fez me sentir viva uma vez na vida. Isso me deu forças para continuar em momentos difíceis e é por isso que eu estou aqui, escrevendo isso, enquanto encaro o pote com os remédios que eu estou prestes a tomar, porque você merece um descanso. Você não foi a culpada por eu não estar aí pra ver você se formar, você foi a razão pela qual eu posso dizer que estou morrendo sem arrependimentos. Morrendo meio que feliz. Obrigada." 
   Aquela era a minha despedida.
   "Eu nunca me amei, e você sabia disso. Eu não culpo ninguém por isso, jamais seria egoísta a tal ponto. Só queria que você soubesse que, quando você me abraçava, quando dizia que me amava, eu chegava perto de sentir amor por mim mesma. E isso foi a maior vitória de minha vida. Eu sinto muito por não ter sido a amiga que conseguiu suportar tudo, nem a que te fez sorrir mais vezes, mas a vida não foi boa pra mim, e eu sinto muito se eu estou fazendo com que pareça que a vida não é boa para você também. Eu sinto muito por todo mal que causei. Aproveite sua vida como se eu ainda estivesse aí para conviver com você, porque pode ter certeza, se eu puder vagar, com a minha pobre alma por aí, eu irei me certificar de cumprir todas as promessas que eu te fiz." Eu estava quase na última linha e meu coração estava lento, como se a qualquer minuto fosse parar de tanta angustia, saudade, e sentimentos escondidos. "Principalmente a te amar para sempre." 
    Amizade pra mim e pra ela era isso: apesar da morte, sentir o amor, quando parecesse que não havia sentimento algum ali. 
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12 comentários:

  1. Mas menina que história triste, bonita, angustiante, emocionante,bem escrita... São tantos os adjetivos que estou até com preguiça de escrever.

    Parabéns!

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    1. muito, muito obrigada por isso. O que eu mais gostei, sobre escrever esse texto, foi poder proporcionar várias emoções, sabe? Deixar a pessoa triste, feliz, satisfeita (ou não) com o final.. coisas assim.

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  2. me identifico tanto com a sua amiga que as vezes me pergunto se não estou sendo exagerada ao me automutilar, porque minas amigas estão sempre ali,ao meu lado.você me faz entender MINHA vida e vc não me conhece.
    Parabens,alguém que faz isso só pode ser especial e...eu não sei dizer mais nada,desculpe

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    1. eu fico mais que feliz por poder fazer você entender como é a vida da amiga, da alma forma do seu corpo que se machuca, cada vez que você se machuca.

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  3. Eu amei. Não tem como não se emocionar...

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    1. que bom que você se emocionou, anônimo. Obrigada.

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  4. Bianca, eu tenho a necessidade de te dizer o que eu vou dizer. Você escreve maravilhosamente bem garota. Nunca -eu disse NUNCA- na sua vida pare com isso. Por favor, envia um dos teus textos pra uma editora, qualquer uma que seja. Você tem potencial e talento pra escrever um livro, e diga-se de passagem, eu vou ser a primeira a comprá-lo. Eu amo seu blog, amo seus textos, amo o jeito que você se expressa. Você é uma escritora de alma, e eu não estaria exagerando se dissesse que você é a próxima Tati Bernardi.

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    1. eu nem sei o que dizer, Júlia, porque eu quase chorei aqui, pra falar a verdade. Eu tive que tirar print e mostrar para todo mundo, porque realmente me emocionei com suas palavras. E próxima Tati Bernardi? Nossa, que honra ser comparada com ela, hein..

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  5. Não tenho outra forma de vir aqui ao não ser no anonimo,me perdoe.
    Nem sei por onde começar, ate porque, sentimentos são coisas complicadas para se escrever. A única saída que temos é senti-lá com intensidade.
    E eu senti.Ao ler o que você escreveu, eu senti. Senti minha vida passando na minha mente, como um flashback. E vi também que minha vida é algo sem sentindo, um pedaço oco e vazio,esperando ansiosamente para ser preenchido. E você preencheu um pedaço dele. Obrigada

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    1. Você soube usar as palavras de uma forma que elas me tocaram também. Eu fico honrada por ter feito a diferença, mínima que fosse, na sua vida, e espero que possa continuar a fazer isso, sempre.

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  6. No começo eu pensei que fosse verdade, que isso já tivesse acontecido contigo, mas vi que não tinha, porque você está indo para o terceirão. Me imaginei perdendo uma amiga, chorei lendo o seu texto, me fez refletir e ver que eu devo aproveitar as amizades que eu tenho, mesmo que sejam poucas. Amei seu texto. Peço que nunca pare de escrever, porque você escreve tão bem, que eu me sinto parte de um texto que estou lendo e é da sua autoria. Obrigada por esses textos maravilhosos que tu escreve, você tem dom, nunca desperdice-o. Ah, parabéns pelo texto e pelo blog, você faz um trabalho incrível!

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    1. Nossa, Vivian, muito obrigada por isso. É um prazer enorme poder ler isso, e saber que você acredita, realmente, que eu escrevo bem. Espero continuar fazendo você se emocionar por muito tempo mais, e que você possa continuar me dando tanto apoio assim <3

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