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Dia dos namorados Parte 2

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      Não é como se eu não soubesse o que está acontecendo. Talvez eu não saiba mesmo, mas a questão não é o que eu sei ou deixo de saber, é sobre nós. Sabe, faz três anos que a única coisa que eu posso usar para sentir seu cheiro são suas camisetas sociais intactas no guarda-roupa. Eu jamais me atreveria a mexer lá,  suas roupas e sapatos estão do mesmo jeito que você deixou quando se foi. Faz três anos que o que eu posso me apegar são as nossas fotos, e eu costumo vê-las como costumava ver você repousar, ao meu lado. E assim o tempo se passou por vinte anos. 
   Faríamos vinte e um anos no dia seguinte ao dia dos namorados, e, um dia que tinha tudo para ser maravilhoso, me deixou com uma caixa repleta da surpresa que você mesmo me deixou. Você só se esqueceu de contar com a sua própria presença. Foi quase impossível acreditar que você havia preparado tudo aquilo para o dia dos namorados, porque nós dois sabíamos que você nunca havia sido desses românticos incuráveis, mas não, lá estava eu, em nossa casa pequena, porém confortável, abismada com o trabalho que você deveria ter tido para ter saído do trabalho, no horário do almoço, provavelmente, e colocando as pétalas, velas, comprado meu suco favorito, já que eu estava tomando aquela medicação que não me permitia álcool, e uma champagne pra você. 
   Eu esperei por horas. Fui até as cinco da manhã, sentada no mesmo lugar da nossa mesa alemã, olhando para a porta. Eu estava indo apagar a última vela que havia resistido todo o tempo, quando meu telefone tocou e sua mãe pode me matar lentamente com a notícia. Sabe a razão pela qual eu chorei todos as noites da semana em que antecedeu o seu enterro? Porque você foi o que conseguiu fazer com que eu me apaixonasse todo dia como se fosse a primeira vez. Dentre tantas razões, o seu cuidado e respeito por mim sempre me encantavam. Seu sorriso de bom dia, sua maneira de tentar me ensinar um pouco sobre economia, da sua paciência invejável, seu jeito de me pedir desculpa depois de brigarmos... tudo me faz pensar como seria se você tivesse voltado para casa. Nunca tivemos filhos, e, talvez, esse seja meu maior arrependimento. 
   Meu pai sempre fazia questão de dizer que nada era pra sempre, e eu confesso que sempre entendi isso. Mas não importa, não mais. Eu sabia que um dia tudo acabaria, mas saber disso não me deixava mais preparada quando de fato acontecesse. Você se foi a um tempo, mas parece que sinto sua presença quando estamos comemorando alguma data especial, seu sopro em meu ouvido quando eu simplesmente viro para o outro lado da cama quando o despertador toca, seus ideais sobre comprar uma lava louça, e, principalmente, sua habilidade de me fazer sorrir só de sentir seu perfume. 
   Feliz dia dos namorados, ao meu eterno namorado; aquele que me fez sorrir quando tudo estava ruim, que não foi o que não me permitiu cair, mas sim o que estava lá para cair comigo, e tentar se reerguer junto. O que se foi, mas que permanece nas lembranças. E, só para que saiba, você ter me proporcionado lembranças boas e ruins foi mais que suficiente para que eu quisesse que você fosse meu único namorado. 
   Sinto sua falta, e feliz dia dos namorados.
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